É uma cena afetuosa, com sete pessoas dividindo uma rede, olhando para o céu escuro. Apesar de vermos que a rede é sustentada por estacas, não dá para enxergar o chão —é como se o espectador olhasse para cima, emergindo num universo de estrelas, respingos amarelos que contrastam com a imensidão.
A visão que o artista mineiro Marcos Siqueira quis retratar é o céu noturno da Serra do Cipó, que fica a cerca de 2 horas de Belo Horizonte. “Quando você deita no chão do Cipó a noite, tudo em volta fica escuro e só resta o céu estrelado. O céu passa a ser chão, e você toca as estrelas”, diz.
Siqueira expõe na Galeria Mitre “Equilíbrio Infinito”, conjunto de seus trabalhos mais recentes. Algumas obras retratam cenas calcadas em memórias específicas, como na pintura em que um menino sobe nos ombros de outro para trocar uma lâmpada. Segundo o artista, a inspiração vem da lembrança de fazer o mesmo com seus irmãos –mas a obra leva um toque de encantamento e poesia.
O espaço negativo, a perspectiva planificada e as figuras ambíguas ao ponto de universalidade –com rosto, gênero e idade indefinidos– refletem o cotidiano da Serra do Cipó, que o artista diz conhecer como a palma da mão.
Lá, ele já trabalhou com muitos ofícios, como guia pelo cerrado. Fundou também um coletivo de preservação e atua como brigadista para proteger a comunidade dos incêndios florestais. Para o artista, seu tempo na natureza lhe deu educação artística –lá, percebia a beleza em uma folha caída, num galho retorcida, na formiga que carrega grãos de terra.
“Quando você está em um lugar com esse horizonte, com várias possibilidades e cheiros, começa a pensar não só naquilo que vê, mas além disso. Sua cabeça vai depois da última montanha do horizonte, além do escuro”, diz.
Siqueira cria também visões oníricas, como na obra em que uma pessoa e uma criança se deparam com o que parece um portal mágico. Ambos flutuam em um céu estrelado e infinito, como o do Cipó. “A imagem pode não ser uma representação do real, mas ainda tem algo da minha memória”, afirma. “Elas vêm de situações que eu vejo e imagino de forma diferente. Pode até ser algo do cotidiano, mas se distorcemos [a realidade], a obra vai para esse caminho”.
Os tons amarelos, beges, marrons, cremes e rosas, bem como a textura das obras, vêm do pigmento usado pelo artista, que mistura terra e cola. Siqueira sempre teve familiaridade com a terra. Lembra de ir ao rio e pegar argila, de diversas cores, para passar no corpo. “As crianças ficavam todas coloridas”, diz, sorrindo. “A ideia de pigmentar com a terra já existia.”
Sua especialização no assunto, diz a curadora Fabiana Lopes, ocorreu quando o artista trabalhou como analista de solos na capital mineira. Para investigar as características de um terreno qualquer, uma equipe extrai buracos de até 16 metros de profundidade.
Siqueira começou a reparar as diferentes cores das camadas de terra. Seu trabalho exigia coletar, lavar, peneirar e analisar as amostras. “A formação estética do Marcos aconteceu enquanto criança, com ele brincando e trabalhando na roça”, diz a curadora. “Ele não teve educação formal em estúdio, mas testou seu conhecimento como analista de solo.”




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