Maestro Duda e as suas 90 luas de eternidade cultural

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Maestro Duda e as suas 90 luas de eternidade cultural


O maior tributo talvez esteja na permanência de sua música no imaginário popular — nas bandas, nos carnavais, nas salas de concerto…



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Você, leitor e amigo, sabe quem é José Ursicino da Silva? Não é outro senão o maestro Duda, que no dia 23 deste mês completou 90 anos. Filho de Goiana, iniciado aos 8 anos na mais que secular Banda Saboeira, Duda revelou desde cedo talento singular. Em 2010, foi consagrado Patrimônio Vivo de Pernambuco, coroando uma trajetória marcada por disciplina, criatividade e uma devoção quase missionária à cultura nordestina.

Sua formação passou por bandas e conjuntos que lapidaram o instrumentista, o arranjador e o compositor que viria a ser referência absoluta e admirável do frevo. Ao longo de décadas, Duda construiu uma obra que alia sofisticação técnica e fidelidade às raízes populares, elevando o gênero a patamares sinfônicos sem lhe retirar o vigor popular.

Aos 14 anos, mudou-se para o Recife para tocar Sax na Jazz Band Acadêmica, criada por ninguém menos que Capiba. Ao lado de Duda, também tocavam Chacrinha, na bateria, e Fernando Lobo, como cantor do mesmo grupo.

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Importante salientar que Moraes Moreira aprendeu frevo com o maestro Duda, para depois imprimir o seu estilo à maneira baiana.

A partir dessa experiência, o maestro chegou à Rádio Jornal e, posteriormente, à TV Jornal do Commercio. Na sequência, também passou a trabalhar, com talento e arte, na orquestra fixa dos estúdios da Fábrica de Discos Rozenblit, que tinha o músico e compositor Nelson Ferreira como diretor musical. “Ele dava as ordens e eu cumpria. Era quem organizava os músicos todos, era o braço direito dele”, explica com orgulho e alegria o nosso maestro Duda.

Lá, gravou ou arranjou músicas dos compositores mais célebres do frevo, como os próprios Capiba e Nelson Ferreira, além de Edgard Moraes, Zumba, Felinho, Lourival de Oliveira, entre outros. Até mesmo o cubano Bienvenido Granda ganhou arranjos do maestro, quando gravou na Rozenblit, em 1957.

Anos depois, mudou-se para São Paulo para trabalhar na recém-inaugurada TV Bandeirantes. Até 1969, fez muita coisa lá, a exemplo de: trilha sonora de filmes dos Trapalhões e direção musical do Programa de Francisco Petrônio. Ao retornar para o Recife, criou a sua própria orquestra, a Orquestra do Maestro Duda, e gravou composições autorais que vão da valsa ao frevo, criando, assim, um imenso acervo de composições suas.

Dentre elas, alguns títulos entraram para o repertório da folia, como “Nino Pernambuquinho”, e outras são amplamente tocadas por bandas sinfônicas do mundo inteiro, como a “Suíte Monette”, que apresenta um fato curioso: é a única dele que não tem frevo.

Amigo que tenho a honra de ser — dele e de sua família, da esposa D. Mída e de um dos filhos, o Marcos Carneiro —, acompanhei com admiração sua reação ao AVC sofrido em 2022, que lhe tirou a mobilidade do braço direito. Com bravura, reaprendeu a criar com o braço esquerdo e, ao computador, continuou compondo. Dessa experiência nasceu o emblemático Dobrado do Homem de um Braço Só, exemplo de sua simplicidade e grandeza.

As honrarias são incontáveis, entre elas a Medalha do Mérito Guararapes, maior condecoração do Estado. Considerando os 120 anos do frevo, pode-se dizer que Duda esteve presente — criativa e decisivamente — em grande parte dessa história.

Festejar seus 90 anos é celebrar a própria música pernambucana. Em recente matéria do Jornal do Commercio, o jornalista Emanuel Bento sintetizou com precisão sua trajetória, dando voz ao próprio maestro, que, com rara franqueza, afirmou: “99% dos frevos têm o meu tempero” e, após receber o título de Doutor Honoris Causa da UFPE, completou: “as universidades já não estudam apenas Beethoven; estudam também Duda”.

No livro Maestro Duda: Um Visionário Nordestino (Cepe), Carlos Eduardo Amaral analisa como o maestro incorporou elementos do jazz — então popular nas rádios — ao frevo, ampliando suas possibilidades estéticas. Foi também na Rádio Jornal do Commercio que recebeu o nome artístico que o consagraria: Duda.

Autor de centenas de obras — frevos, dobrados, valsas, maracatus e peças sinfônicas —, muitas delas clássicos do Carnaval, Duda também se destacou como educador e formador. Sempre acreditou na música como instrumento de transformação social, incentivando jovens, regendo bandas e compartilhando saberes.
Sua relevância ultrapassa as fronteiras do campo artístico: sua obra ajuda a consolidar a identidade cultural de Pernambuco. Cada partitura carrega memória, pertencimento e história.

Aos 90 anos, impressiona não apenas a extensão da obra, mas sua permanente atualidade. O maior tributo talvez esteja na permanência de sua música no imaginário popular — nas bandas, nos carnavais, nas salas de concerto e nas escolas de música.

Em um país de memória curta, reconhecer Duda em vida é gesto de justiça. Seu nome se alinha aos de Capiba, Nelson Ferreira, Alceu Valença e tantos outros que definem nossa pernambucanidade.
Maestro Duda é patrimônio vivo da música brasileira. Sua obra é permanente, sua lição é inspiração e seu nome está eternamente inscrito entre os maiores mestres do país.
Que sua música continue ecoando, formando, emocionando e celebrando o que temos de mais rico: nossa cultura.

PS: Que 2026 nos reúna, leitores-amigos, numa ciranda de dar de mãos, aliada aos votos de saúde, paz e esperança.

Roberto Pereira, Cadeira 34 da Academia Pernambucana de Letras.

 

 

 





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