Evidências inéditas mostram que a fumaça da maconha, longe de ser inofensiva, provoca alterações nos pulmões muito mais cedo do que se imaginava
Cinthya Leite
Publicado em 28/01/2026 às 16:23
| Atualizado em 28/01/2026 às 16:41
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Com idade mediana de apenas 27 anos e um padrão de consumo que, em 84% dos casos, inclui a associação com cigarros convencionais ou vapes (eletrônicos), jovens que fumam maconha estão no centro de um novo e contundente alerta da ciência. Um amplo estudo canadense, o Canuck (sigla para Usuários Canadenses de Maconha, em tradução livre), traz evidências inéditas de que a fumaça da cannabis, longe de ser inofensiva, provoca alterações moleculares e estruturais nos pulmões muito mais cedo do que se imaginava.
Esse alerta surge em um momento de maturidade no olhar da ciência. Por décadas, o debate sobre a maconha concentrou-se majoritariamente em seus efeitos neuropsíquicos. Com a expansão da legalização em diferentes países e o aumento do uso recreativo, pesquisadores passaram a investigar com mais atenção o que acontece no primeiro órgão a entrar em contato com a droga quando ela é fumada: os pulmões.
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“Pela primeira vez, avaliou-se de uma maneira sistemática um número bem considerável de fumantes e maconha quanto aos efeitos especificamente sobre o pulmão. Muito se sabe, há muito tempo, sobre os efeitos neuropsíquicos da maconha, mas o impacto sobre a função pulmonar e o desenvolvimento de doenças respiratórias crônicas ainda não são bem conhecidos. Esse estudo é um importante passo adiante“, diz, ao JC, o pneumologista Alfredo Leite, chefe da Pneumologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc).
É nesse contexto que o Canuck, publicado neste mês no periódico científico European Respiratory Journal, ganha relevância ao colocar em xeque a percepção popular de que fumar maconha seria “menos prejudicial” do que o cigarro convencional.
Foram avaliados 139 pessoas fumantes de maconha e 57 que nunca fumaram.
O perigo da polifumaça
A pesquisa reflete o consumo no mundo real. Entre os participantes que fumam maconha (48% deles homens), a maioria relatou uso atual ou prévio de cigarro tradicional ou vape. Para Alfredo Leite, essa sobreposição de hábitos cria um verdadeiro combo de risco, capaz de acelerar e agravar danos pulmonares.
Mas o alerta vai além: o estudo demonstra que, mesmo pessoas que fumam exclusivamente maconha, apresentam alterações respiratórias claras e independentes. Isso desmonta a ideia de que o risco só existe quando há associação com o tabaco.
“O estudo mostrou maior frequência de sintomas respiratórios como tosse, falta de ar nos usuários de maconha do que nos não usuários e que isso repercute em alterações dos exames de função pulmonar, como a espirometria. Além disso, foram vistas alterações em tomografia e ressonância do tórax, que aparecem com mais frequência (em que usa maconha)”, destaca o pneumologista.

“O crescimento do uso de maconha recreacional tende a elevar as manifestações pulmonares que a gente está começando a observar e entender agora”, diz o pneumologista Alfredo Leite – JC IMAGEM
A escadinha do dano em jovens adultos
Embora o senso comum ainda trate a maconha como menos agressiva aos pulmões do que o cigarro, os dados do Canuck apontam para uma progressão bem definida dos danos. “A pesquisa mostra uma verdadeira escadinha de alterações pulmonares conforme a frequência e a dose aumentam“, Alfredo. Usuários muito frequentes apresentaram mais comprometimento pulmonar do que aqueles que fumam apenas ocasionalmente.
O que mais chama a atenção dos especialistas é a precocidade desses achados. Em participantes na casa dos 20 e poucos anos, os exames já identificaram enfisema radiográfico (destruição do tecido pulmonar visível em tomografias) e anormalidades de ventilação (áreas do pulmão que não recebem ar adequadamente, detectadas por ressonância magnética avançada).
Como sintomas clínicos, aparecem piores pontuações em testes de qualidade de vida, com relatos frequentes de tosse e falta de ar.
Sabotagem molecular: o excesso de muco
Ao aprofundar a análise no nível celular, os pesquisadores observaram que a fumaça da maconha altera os mecanismos de defesa do pulmão. Houve aumento significativo da proteína MUC5AC, responsável pela produção de muco. Em excesso, essa substância obstrui pequenas vias aéreas e está associada ao desenvolvimento de enfermidades, como a DPOC (sigla para doença pulmonar obstrutiva crônica).
“Os achados são muito coerentes e mostram que as alterações que são observadas nesses usuários de maconha são semelhantes àquelas que são descritas em fumantes de cigarro convencional ainda numa fase inicial, quando eles ainda são relativamente jovens. Então, o estudo sugere claramente que deve haver, no futuro, danos aos pulmões desses pacientes, a exemplo da DPOC, que acomete os fumantes de cigarro”, alerta Alfredo Leite.
Além disso, foi identificado um desequilíbrio imunológico: os pulmões de pessoas que fumam maconha apresentam uma maior ativação de uma resposta imune ligada a inflamações e processos alérgicos, além de uma redução da proteção contra infecções respiratórias.
Um caminho sem volta?
Para Alfredo Leite, a crença de que a maconha é inofensiva representa uma “premissa perigosa”, comparável ao desconhecimento que cercava o cigarro nas décadas de 1940 e 1950.
O principal temor é a irreversibilidade dos danos. “Se seguirmos o mesmo padrão observado no tabagismo, uma parte significativa desses efeitos se torna permanente quando o paciente desenvolve DPOC”, alerta o pneumologista.
A inalação frequente de fumaça (seja de maconha, tabaco ou vape) tem contribuído para o surgimento de uma geração de jovens com pulmões prematuramente envelhecidos.
“O fato é que a maioria dos usuários de maconha fuma em quantidades relativamente pequenas. Então, o que a gente precisa saber é se fumantes de grandes quantidades de maconha vão ter lesões pulmonares na proporção que acontece nos fumantes de grande quantidade de cigarro. Os resultados desses estudos sugerem que sim, os fumantes de maconha muito frequentes tiveram mais danos pulmonares do que aqueles que fumam ocasionalmente“, frisa Alfredo Leite.
Agora, evidências científicas apontam que onde há fumaça de maconha, há sim um risco real e precoce para a saúde respiratória. “O crescimento do uso de maconha recreacional tende a elevar as manifestações pulmonares que a gente está começando a observar e entender agora”, finaliza o pneumologista.





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