Luedji Luna curou criança interior para fazer discos em que busca um jazz só seu

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Luedji Luna curou criança interior para fazer discos em que busca um jazz só seu


Para a cantora Luedji Luna, o ano de 2024 foi de intensa investigação pessoal. Tão revelador que desaguou não em um, mas em dois álbuns de músicas inéditas. O primeiro, “Um Mar pra Cada Um”, saiu em maio. Já o segundo, “Antes Que a Terra Acabe”, chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (13), de surpresa, sem aviso prévio aos fãs.

“Por mais que a gente esteja no presente criando, produzindo e se relacionando, somos atravessados pelos traumas [do passado]”, diz a artista. “É necessário tempo e processos terapêuticos para reconhecer que, mesmo inconscientemente, somos movidos por essa criança.”

Nessa jornada, Luedji tentou entender por que mesmo sendo uma cantora bem-sucedida, casada e com um filho, ainda sentia uma carência que chama de oceânica. O primeiro álbum registra a procura por esse amor —seja ele romântico, de amizade, próprio ou divino—, e o segundo, ela diz, mostra “o que fui capaz de fazer para conseguir dar conta dessa demanda”.

Segundo a cantora, são discos que funcionam como espelho. “Um Mar pra Cada Um” é mais onírico, denso e profundo, puxado pelos sopros. Já “Antes que a Terra Acabe” tem uma linguagem direta, maior destaque para a percussão e desde a orquestração de Arthur Verocai na primeira faixa, “Apocalipse”, com participação de Seu Jorge, soa mais expansivo. São obras, diz Luedji, espelhadas e geminianas, como duas faces da mesma moeda.

Os discos inserem o sotaque brasileiro no diálogo —às vezes literal— com uma cena contemporânea, global e afrodiaspórica, de jazz, neosoul e R&B. A saxofonista britânica Nubya Garcia toca em uma faixa dos discos, assim como o pianista americano Robert Glasper, dono de três prêmios Grammy, e o guitarrista Isaiah Sharkey, da banda do cultuado cantor D’Angelo. O saxofonista Kamasi Washington, dos Estados Unidos, e o baterista Yussef Dayes, da Inglaterra, toparam participar, mas não enviaram suas colaborações a tempo.

São também os álbuns mais confessionais da carreira da baiana, que já contava com outros três discos de estúdio. “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água”, de 2020, e sua versão deluxe, com dez músicas inéditas, de 2022, consolidaram seu nome, rendendo prêmios, shows em palcos como o do Rock in Rio, e músicas em trilha de novelas da TV Globo.

Mas agora Luedji quis resgatar o que sentiu ao fazer “Um Corpo no Mundo”, seu álbum de estreia, de 2017. “Todo o resto ali foi lucro —ter reconhecimento nacional, ter sido bem recebido pela crítica”, ela diz. “Porque eu estava diante da sensação impagável da felicidade genuína, de ter me tornado cantora.”

É algo, diz Luedji, que mudou conforme ela teve que lidar com as expectativas do mercado, equipe, empresários, fãs, redes sociais e da comparação com outros artistas. “Você vai se deixando atravessar por questões que pouco tem a ver com a música, com o desejo inicial daquela criança, daquela adolescente, que sempre sonhou em cantar —porque aquilo curava, dava sentido à vida.”

Nascida em Salvador, Luedji não veio de uma família de músicos, mas de funcionários públicos da Petrobrás, segundo ela “a empresa que formou a classe média negra na Bahia”. Foi a primeira filha, a primeira neta da família, a primeira prima, uma criança desejada e “muito amada”.

Ao ter contato com o mundo exterior, ela percebeu uma contradição. “De ter como referência a experiência do amor e se deparar com o desamor, a rejeição, a violência”, diz. Notou que a carência insaciável de hoje vinha “desse lugar que me dizia que eu não era bonita, não era digna de receber amor. Que eu não era humana, né?”

Essa mesma menina começou a inspirar nas cantoras americanas que via na MTV, entre elas Whitney Houston, Mariah Carey e depois Beyoncé. Mas, diz, não conseguia reproduzir aquele estilo pomposo de cantar. Suas referências no canto foram gente da MPB, como Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. “Um canto mais melodioso, mais tranquilo e plácido.”

Luedji ainda estudou direito antes de se mudar para São Paulo, lançar “Um Corpo no Mundo” e estourar nacionalmente com o hit “Banho de Folhas”. Até hoje sua canção mais conhecida, ela alavancou o primeiro álbum da artista, estabeleceu sua carreira, chegou a entrar no repertório de Ivete Sangalo e virou parte da trilha sonora de Salvador.

Mas Luedji nunca foi uma cantora pop, e nunca se encaixou no estereótipo da música baiana. Ela se lembra de recusar um convite para cantar numa festa pública de Réveillon porque o contratante tinha pedido que ela fizesse um repertório mais dançante, mais animado. “Desde o começo quero dialogar com o mundo”, diz. “Eu já estava rompendo com o que se espera de uma cantora negra e baiana. Não estava fazendo axé ou samba.”

Nos primeiros anos de carreira, diz a artista, ela disputava um espaço na MPB, ainda que já buscasse referências na África e na diáspora negra nos Estados Unidos e Europa, para além da afro-baianidade. Hoje, ela se enxerga dentro desse novo jazz, neosoul e R&B feito ao redor do mundo. Mira Solange, Cleo Sol, Janelle Monáe, Jill Scott e Erykah Badu.

Não à toa ela recebeu atenção de plataformas de alcance global onde essa sonoridade é bastante consumida —caso dos canais Colors e Tiny Desk no YouTube. Mas Luedji não quer parecer uma cópia dos gringos, e o contato com Robert Glasper para a colaboração na música “Outono”, de “Antes que a Terra Acabe”, foi reveladora do que é valorizado lá fora.

“Tinha uma música que pensei, ‘nossa, isso aqui está a cara do Glasper, tenho que chamar ele’. E aí, por incrível que pareça, a música que mais dialogava com o som dele, ele não topou. Quis fazer uma coisa diferente, algo completamente novo, do zero. Eles não querem emular o que eles já são.”

Ao longo de seus discos, Luedji desenvolveu um canto que emociona sem fazer escândalo, carrega uma Bahia mais Caymmi que Ivete, tem raiz na MPB de Marisa Monte, Luiz Melodia e Milton Nascimento e consegue ser sutil e elegante sem soar bossanovista —ainda que ela se arrisque pelo gênero em um dueto com Alaíde Costa no novo álbum. Para os novos álbuns, ela tentou incorporar algumas técnicas de canto da tradição negra americana, mas sem botar seu estilo a perder.

“Comecei a me interessar e aprender. Você vê que tem um pouquinho de vibrato, um ou outro melisma. Mas estou experimentando para construir meu próprio jeito de fazer jazz. Sem ser caricato, sem ser uma cópia fiel da música negra americana. Tenho minha própria história —meus pais ouviam MPB, eu não venho da igreja.”

Para ela, cantoras que vêm da igreja, como Liniker, que participa de “Um Mar pra Cada Um”, já dominam técnicas como os melismas e beltings, que remetem ao gospel americano. Nomes como Iza, Majur e Xênia França são outros exemplos de cantoras contemporâneas com essas influências no canto.

Luedji também defende que ela, e essas cantoras, são muitas vezes rotuladas pelo mercado como parte da MPB, ainda que na prática façam outros estilos —algo que a cantora vê como uma cena em ebulição, mas ainda sem um rótulo. Ela vê uma linhagem de música negra que parte do soul de Tim Maia, Cassiano e Sandra Sá, passa por Luciana Mello e Max de Castro e chega hoje a gente como Melly, Bebé Salvego, Tuyo e Youn.

Ainda assim, Luedji parece trilhar um caminho mais parecido com Djavan —além de uma das principais referências da cantora, o alagoano também construiu uma carreira no Sudeste com uma música desatrelada de movimentos, com inspiração estrangeira mas enraizada no Brasil. Ela dispensa as comparações.

“Fico muito feliz quando fazem esse paralelo com a minha música. Lá no início da carreira já faziam essa comparação”, ela diz. “Mas falo, ‘Gente, pelo amor de Deus, não façam isso, não bota essa responsabilidade nas minhas costas’. É só o ‘luedjismo’ mesmo.”

É uma relação que também encontra eco no amor como tema principal de suas letras. Os dois novos álbuns registram Luedji perseguindo aquela humanidade que lhe foi negada quando menina a partir de outras relações. “A gente vai sendo mobilizado por ego, vaidade e carência”, diz. “E nessa brincadeira acaba magoando as pessoas, tendo irresponsabilidade afetiva.”

“Apocalipse”, do disco recém-lançado, diz a cantora, veio como uma revelação. “Estou agindo assim, buscando outros afetos, outras paixões, validação social… Esse meu afã por tudo isso é por causa da da criança lá atrás. Então vamos curá-la, deixar ela lá, acolher e dizer que agora está tudo bem. ‘Você é bonita assim, você é amada assim, você é humana’.”



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