Depois de boa parte do público dizer que o Lollapalooza do ano passado ficou preso ao passado, o festival teve de rebolar para reunir uma seleção de artistas ao gosto do freguês. A 13ª edição do evento começa nesta sexta-feira, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, liderada por Sabrina Carpenter, que era pouco conhecida nos dez shows que já fez no Brasil —mas que agora volta como estrela do pop.
Desde que esteve no país pela última vez, para abrir shows de Taylor Swift há três anos, Carpenter venceu dois troféus do Grammy com “Short n’ Sweet”, disco feito na esteira do hit “Espresso”, mistura de cafeína e tensão sexual que viciou o público e virou a segunda canção mais tocada do mundo no Spotify há dois anos.
Depois de dez anos tentando —com cinco álbuns lançados desde 2016—, a americana fez sua obra deixar de ser vista como aperitivo para virar prato principal. Agora ela apresenta o “Man’s Best Friend”, seu disco mais recente, em que esculacha os homens e se declara para eles ao mesmo tempo.
Foi uma época quente também para Chappell Roan, à frente do Lollapalooza no sábado, colhendo os louros da sua vitória como artista revelação no Grammy do ano passado —quando derrotou a própria Carpenter, inclusive. Fusão de diva pop e drag queen, Chappell se destacou por entoar os amores e as dores de mulheres lésbicas num pop radiante. Ela canta pela primeira vez no país.
No domingo, o festival termina com Tyler, The Creator, outro estreante por aqui, que esticou os limites do rap com discos conceituais que tratam de sexualidade, amor e vulnerabilidade. É dia também da neozelandesa Lorde, de volta ao país após quatro anos com o disco “Virgin”, que devolveu a ela o prestígio de outrora.
Essa safra vem depois de uma fase tida como ultrapassada. Os principais artistas da edição passada foram Justin Timberlake, voz dos anos 2000 que não dialoga com o cenário atual, o cantor pop Shawn Mendes, que havia cantado no Brasil apenas seis meses antes, e Olivia Rodrigo, a mais popular entre eles, mas que já estava longe do auge vivido em 2022.
Marcelo Beraldo, o diretor artístico do evento, afirma concordar em partes com essa avaliação. “Em alguns anos a gente tem mais sorte que em outros. A gente vai ficando um pouco mais experiente, né? Mas a essência do Lollapalooza ainda é a mesma.”
Se avançou em sua ala internacional, esta edição do festival perdeu força na leva de artistas brasileiros. Chamam a atenção Negra Li e Edson Gomes, na sexta-feira, e Foto em Grupo, nova banda de Ana Caetano, do duo Anavitória, que toca no sábado.
Nenhum deles, porém, tem o peso de Gilberto Gil, que se apresentou há duas edições, ou o apelo popular de Jão, que lotou o gramado do autódromo no ano passado, e de Pitty e Ludmilla, escaladas para a edição de 2023.
Mas o que mais joga a favor deste Lollapalooza é a competição. Os megafestivais Rock in Rio e The Town, principais rivais do Lollapalooza, vêm sendo criticados por reciclar as suas atrações. Artistas como Travis Scott, Mariah Carey e Katy Perry revezaram, por exemplo, as edições mais recentes dos eventos, gerando em parte do público a sensação de déjà-vu.
“A gente brinca que, independentemente do line-up, haverá gente reclamando”, diz Marcelo Beraldo, defendendo os concorrentes. Lollapalooza, Rock in Rio e The Town são todos produzidos pela mesma empresa, a Rock World, do empresário Roberto Medina. “Sempre há espaço para os grandes nomes, os vendedores de ingressos.”
Por outro lado, o Lollapalooza historicamente aposta em artistas não necessariamente muito populares, mas que estão em processo de formar um séquito fiel de fãs. É o caso da americana Doechii, que canta na sexta-feira, hoje a voz mais potente do rap feminino nos Estados Unidos —ela derrotou Kendrick Lamar, líder desse gênero, na briga pelo Grammy de álbum de rap do ano passado. Enérgica no palco, Doechii deverá tocar até funk.
No domingo, há expectativa pelo show de Djo, nome artístico de Joe Keery, ator de “Stranger Things”, série que terminou em dezembro. No mesmo dia se apresentam ainda a cantora Addison Rae, popular no TikTok, e o grupo Katseye, também grande nas redes.
O TikTok ajudou a catapultar também o britânico Lewis Capaldi, voz de “Someone You Loved”, que se apresenta no sábado. A própria Chappell Roan deve muito ao aplicativo chinês —seu hit “Good Luck, Babe!” explodiu por ali.
Isso gerou polêmica no ano passado. Muitos fãs disseram que, ao escalar artistas paridos pelo TikTok, o Lollapalooza se rendeu à lógica efêmera das redes sociais para vender ingressos. Era o caso de Benson Boone, do viral “Beautiful Things”, e de Tate McRae, onipresente no universo digital.
Beraldo se surpreendeu com o molejo de Boone —”foi mais do que eu esperava”, ele diz. “A gente procura ir até onde a atenção das pessoas está. O Benson Boone estava no TikTok, sim, mas também nas rádios. Minha filha de nove anos conheceu ele antes de mim. A gente tem que conversar com quatro gerações diferentes.”
Para os mais velhos, Beraldo escalou a banda Deftones, criada no final dos anos 1980, nome consagrado do metal alternativo, e o grupo Interpol, que ajudou a reviver o punk na década de 2000. Há também o hip-hop do Cypress Hill, fundado em 1988.
Para montar essa escalação, o Lollapalooza encara uma desvalorização dos festivais após artistas de peso decidirem que é mais lucrativo e prestigioso fazer megashows sozinhos, especialmente após as últimas turnês de Taylor Swift e Beyoncé. “Eles ponderam por razões financeiras e de logística de produção”, diz Beraldo. “E o cachê desses artistas, em dólar, segue aumentando. É difícil.”
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