O mundo dos livros tem passado, já há anos, por um visível processo de transformação, mas talvez a maior guinada tenha acontecido em 2025. Se a produção editorial se digladia com mecanismos como a inteligência artificial, histórias do próprio cânone literário também têm sido recontadas.
Este foi o ano em que editoras do mundo todo dobraram sua preocupação com direitos autorais, ameaçados por empresas de tecnologia que usam catálogos sem permissão. Se há um ímpeto crescente na busca por acordos com as megacorporações, as batalhas judiciais também esquentam.
Como revelou uma reportagem da Folha, empresas de IA usaram cópias piratas de livros de uma quantidade imensa de autores, incluindo brasileiros populares como Clarice Lispector, Chico Buarque e Paulo Coelho, para treinar seus modelos de linguagem.
As big techs têm argumentado que as máquinas fazem um uso justo do material, lendo e transformando os livros como um ser humano faria. Parece só a ponta de um iceberg profundo da nova era da linguagem, que não afeta só o acesso a material já existente, mas as criações futuras.
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A questão vai ficar mais premente quando escritores passarem a usar essa ferramenta com mais intensidade, borrando ainda mais o que se entende por autoria. O prêmio Jabuti, por exemplo, vai mudar suas regras e passar a permitir a inscrição de obras feitas com recurso à inteligência artificial?
As grandes instituições não raro são as últimas a incorporarem mudanças que já se alastram no dia a dia. Um exemplo é a Academia Brasileira de Letras, que só abriu suas portas para a eleição de uma escritora negra no último mês de julho, quase 130 anos após sua fundação.
Ana Maria Gonçalves, autora do já clássico “Um Defeito de Cor”, se tornou a primeira imortal negra meses depois de uma votação promovida pela Folha ter ratificado o romance como o melhor da literatura brasileira do século 21, em um balanço que envolveu mais de cem especialistas.
Como mostrou essa lista, a literatura nacional é mais plural hoje, em raça, gênero e local de origem, do que décadas atrás —o que se confirma em outros rostos novos na Academia, como a jornalista Míriam Leitão e o escritor Milton Hatoum.
O manauara tomará posse em março como a primeira presença amazonense na ABL. Aliás, neste ano ele encerrou um labor de décadas em sua trilogia sobre a ditadura militar, publicando “Dança de Enganos” —e outro escritor que renovou a literatura no país, o baiano Itamar Vieira Junior, terminou sua trilogia da terra no mesmo mês com “Coração sem Medo”.
Prêmios como o Oceanos, que consagrou Silvana Tavano e Ana Maria Vasconcelos, reforçam a relevância da literatura feita por mulheres no país. Mariana Salomão Carrara também cimentou seu reconhecimento nacional após levar, pela segunda vez em três anos, o Prêmio São Paulo de Literatura.
E a Fuvest, vestibular para entrar na maior universidade do país, teve seu primeiro ano cobrando apenas livros escritos por mulheres como obrigatórios. A USP já anunciou que, a partir de 2030, vai romper outro marco inédito, com a cobrança de literatura indígena.
É evidente que essa diversidade não quer dizer que homens brancos deixaram de fazer livros de qualidade e serem reconhecidos por eles.
O húngaro László Krasznahorkai venceu o Nobel de Literatura. O Jabuti de livro do ano ficou com Ruy Castro, colunista da Folha, e seu compêndio de crônicas cariocas sobre Tom Jobim. E o paulista Tony Bellotto levou seu primeiro grande troféu literário para casa, o de melhor romance literário por “Vento em Setembro”.
Esse equilíbrio entre a celebração do Rio de Janeiro e de São Paulo também se refletiu numa coincidência singular, em junho, quando dois dos maiores festivais literários do Brasil aconteceram praticamente ao mesmo tempo —a Feira do Livro em São Paulo e a Bienal do Livro do Rio.
O evento fluminense, que alcançou mais um recorde de público nesta edição, aconteceu em meio às celebrações do Rio como a Capital Mundial do Livro, uma programação que mobilizou atenções e investimentos na cidade ao longo do ano.
E no meio das duas cidades, a Flip voltou a acontecer em Paraty em seu período tradicional de inverno. Entre autores populares como Rosa Montero e Valter Hugo Mãe, inflamou os debates políticos com a presença do professor israelense Ilan Pappe, um dos acadêmicos mais firmes na crítica às políticas agressivas de seu país contra os palestinos.
Foi Pappe também o catalisador de um conflito entre a Flipei, festa dissidente da Flip que se mudou para São Paulo, e a prefeitura de Ricardo Nunes, que voltou atrás na cessão do espaço da praça das Artes poucos dias antes da inauguração do evento em agosto. Culpou motivações políticas.
As feiras literárias têm solidificado cada vez mais uma dupla vocação. Estão se multiplicando pelo país, incentivadas por políticas públicas locais, e concentrando cada vez mais público e vendas, em um momento em que a assiduidade dos leitores nas livrarias tem deixado mais a desejar.
Apesar de ainda pairar a lembrança da pesquisa Retratos da Leitura, que mostrou pela primeira vez que somos um país com maioria de não leitores, o balanço do mercado editorial não mostra catástrofe.
Segundo pesquisa da Nielsen, o acumulado de 2025 aponta um crescimento de 9% na quantidade de livros vendidos e de 7,8% no faturamento do setor, na comparação com 2024. Os dados cobrem de janeiro até 2 de novembro.
É um consumo que tem mudado rapidamente, com as compras virtuais tomando uma fatia maior do bolo, o que tem sedimentado os grandes eventos como uma oportunidade ímpar de levar os jovens a um contato mais próximo com o livro e seus autores.
Muitos favoritos do leitorado nos deixaram neste ano —a começar por um dos maiores cronistas da história do país, Luis Fernando Verissimo, e um de seus maiores cartunistas, Jaguar.
Nome essencial da literatura infantojuvenil, Marina Colasanti morreu semanas antes de seu viúvo, Affonso Romano de Sant’Anna. Pouco depois se foi Heloisa Teixeira, outra que havia mudado a ABL com seu feminismo incontido.
Lá fora, houve a perda de medalhões da literatura como o peruano Mario Vargas Llosa, o queniano Ngugi wa Thiong’o, a portuguesa Maria Teresa Horta e o tcheco-britânico Tom Stoppard.
Foi mais um ano em que muito do que conhecíamos se foi enquanto ainda não sabemos —e até tememos— o que vem por aí. Mas se há um instrumento que sempre soube nos ajudar na angústia desse limbo, é o livro.
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