Livro sobre a Globo detalha relação complexa e tensa da emissora com a ditadura

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Livro sobre a Globo detalha relação complexa e tensa da emissora com a ditadura


Há muitas maneiras de contar a história da Globo, que comemora 60 anos em abril de 2025. O jornalista Ernesto Rodrigues escolheu mergulhar nos arquivos da própria emissora, o Memória Globo, acessando 400 depoimentos, em sua maioria inéditos, de funcionários das áreas de jornalismo, dramaturgia, entretenimento, esportes, comercial e institucional, com lembranças sobre episódios que testemunharam.

Acrescentou à pesquisa cerca de 60 entrevistas com figuras relevantes da história da emissora, incluindo executivos atuais e do passado, além de seis horas de conversa com os três filhos de Roberto Marinho, o fundador da empresa. E assegurou, em contrato assinado com Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho, que o acesso total aos depoimentos inéditos, bem como o conteúdo do livro, não passaria por supervisão editorial de qualquer instância do Grupo Globo.

O resultado é “A Globo”, que será publicado em três volumes, com quase 2.000 páginas no total. O primeiro volume, “Hegemonia: 1965-1984”, está saindo agora. Os outros dois, “Concorrência” e “Metamorfose”, serão lançados no ano que vem.

É natural que o leitor imediatamente se pergunte —mas é um livro crítico ou “chapa branca”? Em entrevista à Folha, Rodrigues diz: “Não acredito em imparcialidade jornalística. Acredito em enriquecer com o máximo de sinceridade possível uma história. E foi o que eu tentei fazer. Fica claro que dou voz a todas as pessoas que odiavam a Globo, tanto na área acadêmica quanto jornalística. Mas, ao mesmo tempo, dou voz às pessoas que fizeram a Globo”.

Ex-ombudsman da TV Cultura por dois anos e professor de jornalismo por uma década, Rodrigues considera importante abrir o primeiro volume relatando que trabalhou por 14 anos no jornalismo da Globo, ocupando vários cargos de chefia, até ser demitido em consequência de um erro grave que cometeu.

Em maio de 1999, o jornalista determinou a entrada no ar de um boletim ao vivo de Sandra Annenberg noticiando a morte de João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, mas o ex-atleta não tinha morrido. Ele morreu 11 dias depois. “Jamais questionei a legitimidade da minha demissão. Jornalismo, eu sempre dizia para os alunos, é coisa séria”, diz.

O livro começa, como não poderia deixar de ser, com a descrição dos muitos percalços que a Globo enfrentou nos seus meses iniciais. “Um desastre lindo”, nas palavras de Roberto Irineu. Problemas técnicos, baixíssima audiência, programação fraca, uma “barafunda”, segundo Walter Clark, que assumiu a direção geral em dezembro, oito meses após a inauguração.

Rodrigues acrescenta poucas novidades sobre o acordo que Roberto Marinho assinou com o grupo americano Time-Life, um aporte milionário de recursos que foi fundamental para a criação da emissora e se tonou objeto de uma CPI no Congresso. Sob forte ataque de Assis Chateaubriand, dono da concorrente Tupi, o acordo também foi bombardeado pelo então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, rompido com Marinho.

Para decepção do dono da emissora, seus dois irmãos, Ricardo e Rogério, que eram sócios no jornal O Globo, desistiram de participar do negócio da TV e, pior, ficaram do lado de Lacerda. “Foi a primeira vez que papai se indispôs com os irmãos”, conta Roberto Irineu.

A proximidade de Marinho com a ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985 é um tema que percorre todo o primeiro volume. São várias as questões abordadas, buscando mostrar que, diferentemente da ideia de que o empresário abraçou de forma incondicional o regime, foi uma relação complexa, contraditória e tensa.

Rodrigues classifica a relação como de “subserviência imposta”. É um termo complicado, porque “subserviência” é uma “submissão voluntária”, como diz o Houaiss. Ou foi imposta ou foi voluntária.

Um caso revelador é o do programa Ordem do Dia, exibido pela Globo, em Brasília, de segunda a sexta, entre julho de 1968 e janeiro de 1971, às 21h45. O noticiário, com textos de apoio entusiasmado à ditadura, era apresentado pelo coronel Edgardo Erickson, que andava armado dentro da emissora.

Nas palavras de Rodrigues, o militar ocupava o “cargo-fantasia de diretor do Departamento de Relações Públicas”. O conteúdo editorial do seu programa não passava pelo crivo de ninguém dentro da Globo, incluindo Roberto Marinho.

Rodrigues lembra que Walter Clark, em sua autobiografia, diz que Erickson e o coronel Paiva Chaves, oficial do Exército que se tornou um executivo importante da Globo, “foram contratados com a função de fazer a ponte entre a emissora e o regime”.

O cinegrafista Chucho Narvaez, que trabalhou no programa de Amaral Netto, revelou que “ajudava” Erickson, sem explicar exatamente como, acrescentando que o coronel “tinha trânsito com o presidente da República” e intervinha “quando a Globo tinha problemas com a Censura”.

A repórter Marilena Chiarelli, uma das testemunhas da intimidação armada diária de Erickson dentro da emissora, contou ao Memória Globo: “Aquele senhor policiava até as coisas que a gente escrevia, sem que a gente soubesse até onde ia o poder dele ou quais eram as relações dele. E andava armado até no estúdio. Era opressivo, de dar arrepio”.

Rodrigues reproduz um pedido de Armando Nogueira, diretor de jornalismo, a Roberto Marinho, para afastar Erickson. O empresário responde dizendo que temia perder a concessão da emissora e observa: “Sabe o que pode acontecer? É o Erickson voltar em quinze dias, não em Brasília, mas em rede nacional”.

Já o coronel Paiva Chaves, que trocava a farda pelo terno no carro, no trajeto entre o 1º Exército e a Globo, classificou como “difusa” as suas funções na Globo, na intermediação entre os interesses da direção da emissora e os dos chefes militares. Segundo Rodrigues, o militar tinha o apelido de “Maçaneta”, pela capacidade de abrir portas poderosas para a Globo.

Ao longo de 672 páginas, Rodrigues enfileira centenas de histórias saborosas, curiosas ou surpreendentes sobre as primeiras duas décadas do canal. O livro descreve os bastidores sobre a criação de programas jornalísticos até hoje no ar —como Jornal Nacional e Fantástico—, a implantação do departamento de teledramaturgia e as novelas de maior sucesso no período, a importância da área de humor e dos musicais, além de detalhar as muitas crises e erros causados pelo alinhamento da emissora com o governo militar, culminando na cobertura das Diretas Já, um dos maiores fiascos da emissora.

Ao falar da fábrica de novelas, Rodrigues aborda um tema delicado, o que ele chama de “escola do grito”, os diretores que impunham suas vontades de forma agressiva e autoritária. Com base nos depoimentos do Memória Globo, o livro cita nominalmente Walter Avancini, Daniel Filho, Paulo Afonso Grisolli, Paulo Ubiratan, Herval Rossano, Ricardo Waddington e Luis Fernando Carvalho.

Sobre Avancini, escreve: “Um dos mais temidos de uma geração de diretores cujos métodos autoritários e às vezes truculentos dirigidos principalmente às mulheres inspiraram mitos e produziram episódios de drama e medo, além de uma espécie de masoquismo profissional que foi moda nos estúdios da Globo ao longo dos anos, pelo menos até o compliance e as políticas contra assédios de toda espécie serem implantadas pela emissora a partir dos anos 2010.”

Um segmento importante do livro detalha o movimento que os herdeiros de Roberto Marinho fizeram para consolidar suas posições na emissora, implicando num longo processo de esvaziamento do poder de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. “Com a saída de cena do Roberto Marinho, os filhos entendem que tem que tomar conta da empresa, e quem mandava na empresa era o Boni. Marluce Dias da Silva, que o substituiu, foi um instrumento dos irmãos Marinho para ir esvaziando e enxugando o Boni até ele sair“, diz Rodrigues.

Questionado pela Folha sobre qual é, na sua visão, a contribuição deste livro, Rodrigues diz: “Não acredito que o livro vá mudar a opinião de ninguém, mas é uma contribuição da qual tenho muito orgulho para um debate um pouco mais realista, mais fiel aos fatos, menos armado, do ponto de vista ideológico”.

E conclui: “Que as pessoas se reencontrem com a Globo verdadeira, que mexeu com a vida de todos nós, queiramos ou não, ao longo de seis décadas. Não estou em busca de mocinhos e bandidos. Têm pessoas que tomam atitudes edificantes em alguns momentos e atitudes nem tão edificantes em outros, em todas as áreas, inclusive jornalismo e entretenimento”.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *