Por que dar atenção a um livro que reúne curtas biografias de artistas históricos da música? Afinal, alguns nomes do elenco apresentado em “Sustentar a Nota: Perfis Musicais” estão entre as celebridades pop mais biografadas das últimas décadas, como Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones.
Mas a capa traz a assinatura de David Remnick, 67, bem atraente para aqueles que acompanham de perto o jornalismo. Em 1998, ele assumiu como diretor de redação da The New Yorker, a centenária revista com longos artigos que ainda mantém uma aura de depuração sobre temas relevantes.
Essa credencial já antecipa o que se percebe em poucas páginas: Remnick escreve muito bem num texto fluido que elenca informações e propõe reflexões.
Cada capítulo é dedicado a uma figura incontornável da música. São poetas (Leonard Cohen, Bruce Springsteen, Bob Dylan e Patti Smith), expoentes de som negro (Aretha Franklin, Buddy Guy, Mavis Staples e Charlie Parker), ídolos supremos (Keith Richards e Paul McCartney) e, num dos trechos mais divertidos, Luciano Pavarotti.
O capítulo que fala do tenor italiano demonstra que Remnick tem ali um personagem que, musicalmente, não é tão familiar ao autor. Aí vem o talento jornalístico, que oferece um texto delicioso sobre um Pavarotti fortemente gripado durante turnê em Cingapura.
Entre as agruras de Pavarotti, o autor insere algumas passagens de sua carreira de sucesso mundial. Aqui está clara a proposta de Remnick. Os perfis não são biografias resumidas dos artistas, algo fácil de encontrar na Wikipedia. Nada didáticos, foram escritos, ao que parece, para levar a um entendimento mais profundo sobre o papel desses artistas e flagrar essas lendas, a maioria já em idade avançada, em momentos de intimidade que ajudam a pintar retratos carinhosos.
A escolha de Leonard Cohen para ser o capítulo de abertura é muito feliz. Talvez seja o melhor representante dessa proposta. Remnick usa como fio condutor do texto uma visita ao cantor e poeta canadense, pouco antes de sua morte, em 2016.
Sempre um entrevistado falador, mesmo debilitado Cohen mantém um discurso articulado, consciente da finitude próxima. E o autor transporta para as páginas instantes incríveis dessa conversa, muitos deles bem distantes da música. “Arrumar a casa, se você puder, é uma das atividades mais reconfortantes que existem, e os benefícios são incalculáveis”, dispara o poeta mais sedutor do rock.
Às vezes, a grande sacada não vem do discurso do entrevistado, mas da observação aguçada do jornalista. Ao narrar uma recepção que a mulher de Paul McCartney organizou nos Estados Unidos, Remnick exibe o ex-Beatle cercado de políticos, governantes, estrelas de Hollywood, esportistas famosos e astros da música e das artes. Enfim, celebridades.
O autor percebe o que aquelas pessoas famosas têm em comum: todas são fãs de Paul McCartney e dos Beatles! Essa observação aparenta ser óbvia e simples, mas propicia a qualquer um sentir um pouco do peso que representa ser um Beatle. Como conviver com a constatação de que ninguém é mais famoso do que você? Como em outros momentos do livro, é um convite à reflexão.
Ao falar de McCartney, é fácil encontrar uma imensa admiração de Remnick pelo personagem. O capítulo sobre Bob Dylan também despeja no leitor a mesma impressão. Mas a coisa muda de figura em relação a Keith Richards, uma estrela roqueira da mesma grandeza dos outros dois.
O autor não gosta dos Stones. O capítulo sobre Richards é o mais burocrático da coletânea. Faltam as boas sacadas que Remnick extraiu para os perfis dos outros. E essa frieza fica mais problemática em se tratando de uma das figuras mais singulares do rock, para dizer o mínimo.
A baixa tolerância com os Stones é explícita, como nesse trecho: “Poucos espetáculos da vida moderna são mais sublimemente ridículos do que os geriátricos Stones tocando os acordes iniciais de ‘Street Fighting Man’”.
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Ele afirma, com todas as letras, que há mais de 30 anos os Stones não produzem um álbum relevante, comparável a seus melhores trabalhos. É verdade, mas essa afirmação poderia ser direcionada a outros de seus perfilados, como McCartney, Dylan, Bruce Springsteen, Patti Smith ou Aretha Franklin. Por que abrir a artilharia pesada apenas para Jagger e Richards?
Essa implicância pode irritar o leitor fã dos Stones, mas não compromete um livro tão poderoso. E a obra vai muito além do rock. blues, jazz e soul, menos consumidos no Brasil, têm ótimos representantes no guitarrista Buddy Guy, no saxofonista Charlie Parker e nas cantoras Aretha Franklin e Mavis Staples.
O próprio Remnick reconhece que existem entrevistados mais fáceis do que outros. E isso fica claro no último capítulo, com Patti Smith. Conhecida por longas e relevantes entrevistas, sua inclusão no livro não exigiu muito do autor. Ele simplesmente editou perguntas e respostas de duas conversas com a cantora para a The New Yorker. É incrível e fecha em grande estilo um livro singular, instigante e necessário.


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