Liu Jiakun vence o Pritzker com arquitetura enraizada na herança da China

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Liu Jiakun vence o Pritzker com arquitetura enraizada na herança da China


A paisagem da China tem, pelo menos desde a virada do século 21, sido definida por fenômenos como rápida urbanização, cidades produzidas em série e infraestruturas monumentais. Uma transformação impulsionada por fatores de ordem econômica e ligada a eventos de escala mundial, como os Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, e a Expo 2010, em Xangai.

No entanto, um movimento paralelo na arquitetura, que valoriza a memória, saberes locais e o desenvolvimento em pequena escala tem ganhado força. Liu Jiakun, vencedor do prêmio Pritzker de 2025, divulgado nesta terça, a maior premiação da arquitetura mundial, é um dos principais nomes desse caminho alternativo.

Ao lado de figuras como Zhu Pei, Yung Ho Chang e Wang Shu —primeiro, e até então único, arquiteto chinês a vencer o Prêmio Pritzker, em 2012—, Jiakun faz parte de uma geração que reinterpreta a tradição em vez de apagá-la. Princípios espaciais, lógica material e técnicas artesanais tradicionais são integrados ao design contemporâneo, criando uma arquitetura que é atual e, ao mesmo tempo, profundamente enraizada na herança cultural.

Essa abordagem representa uma forma de fazer arquitetura que é, essencialmente, chinesa, pois oriunda de sabedorias e modos de praticar o espaço ligados ao contexto local, em vez de a tendências externas, reforçando a ideia de que modernidade e tradição não são excludentes, mas podem coexistir harmoniosamente.

O compromisso de Jiakun com o espaço público é flagrante —em um país onde o planejamento urbano frequentemente segrega funções em zonas distintas, seus projetos promovem a integração. Suas obras resgatam a natureza pública do espaço, incentivando a interação social em ambientes onde a densidade urbana costuma ser vista como um obstáculo, e não como uma oportunidade.

Em vez de pensar a cidade a partir de distritos monofuncionais, seus projetos integram elementos residenciais, comerciais e culturais, fomentando ambientes dinâmicos. Um bom exemplo é o West Village, de 2015, um empreendimento de uso misto de cinco pavimentos localizado em Chengdu, que contrasta fortemente com a verticalidade das paisagens urbanas chinesas.

O projeto inclui uma passarela elevada para pedestres e ciclistas, oferecendo um raro —e muito bem-vindo— espaço público acessível. Seu compromisso com a escala humana e o conforto é sentido também na presença da vegetação, que ocupa grande parte do pátio do empreendimento, sua cobertura e fachadas.

Entre seus trabalhos mais instigantes está o “Rebirth Brick”, ou tijolos do renascimento, uma iniciativa criada após o terremoto de Wenchuan, na província localizada no centro do país, em 2008. Diante da devastação da região, o arquiteto desenvolveu um método para transformar escombros em novos tijolos, reforçados com uma mistura de cimento e fibras de palha para maior resistência.

Além do aspecto sustentável de reutilizar o material oriundo de estruturas que colapsaram, o projeto consistia em um gesto poético de resiliência. Simbolizava a reconstrução, permitindo que o passado fosse literalmente incorporado ao futuro.

O que começou como um esforço em pequena escala, em que os tijolos eram produzidos de forma artesanal e comunitária, logo ganhou tração, demonstrando na prática como soluções locais podem ser ampliadas para abordar desafios arquitetônicos e urbanos mais complexos. Desde então, os tijolos foram integrados em alguns de seus projetos mais importantes, como o edifício para a farmacêutica Novartis em Xangai e o M useu Shuijongfang, em Sichuan, reforçando a noção de que a arquitetura deve ser um processo contínuo, conectado à memória e ao lugar.

O portfólio construído de seu escritório —Jiakun Architects, fundado em Chengdu em 1999— reflete o compromisso com uma arquitetura pensada, contextualizada e enraizada na cultura.

Algumas de suas obras mais notáveis incluem o Departamento de Escultura do Instituto de Belas Artes de Sichuan (2004), que explora iluminação e ventilação naturais nos ateliês; o Museu de Arte em Esculturas de Pedra de Luyeyuan (2002), que integra princípios do paisagismo chinês tradicional; a renovação das Cavernas de Tianbao para o envelhecimento de licores (2020), que conecta diferentes estruturas arquitetônicas em um percurso nas montanhas; e o Pavilhão Serpentine, em Pequim (2018), a primeira edição do famoso projeto britânico realizada fora do Reino Unido.

Jiakun não segue regras de um estilo específico. Trata a arquitetura como uma estratégia, respondendo de maneira singular ao contexto de cada projeto. Faz uso de diferentes tecnologias, equilibrando tradição e inovação sem recorrer à nostalgia.

Seu trabalho tem sido amplamente exibido em eventos internacionais, como a Bienal de Veneza e a Bienal de Shenzhen, conquistando reconhecimento global com projetos que partem de sabedorias locais. Como educador, lecionou em algumas das mais prestigiadas instituições de ensino no mundo, como o MIT, nos Estados Unidos, o Royal College of Art, no Reino Unido, e a Central Academy of Fine Arts, na China.

O júri do prêmio Pritzker —composto este ano pelo presidente Alejandro Aravena, Barry Bergdoll, Deborah Berke, Stephen Breyer, André Aranha Corrêa do Lago, Anne Lacaton, Hashim Sarkis, Kazuyo Sejima e Manuela Lucá-Dazio— elogiou sua capacidade de apresentar um olhar revigorante para a densidade urbana, fortalecer a identidade coletiva e criar uma arquitetura ao mesmo tempo modesta e com potencial de transformação comunitária.

Sua vitória marca um momento crucial no discurso arquitetônico, destacando a crescente relevância de profissionais que priorizam a manutenção da cultura em vez do desenvolvimento acelerado, que dita o ritmo em tantas cidades do Sul Global.

O trabalho de Jiakun desafia a noção de que o futuro da produção arquitetônica da China deve ser definido pela alta produtividade e pela grande escala. Seu reconhecimento sinaliza uma mudança na compreensão global da arquitetura chinesa, que valoriza profundidade, saberes locais e continuidade histórica.

Seu trabalho sugere que o ato mais radical na arquitetura talvez não seja a reinvenção, mas a cuidadosa e reflexiva reinterpretação daquilo que já existe.



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