Lázaro Ramos e Ronilso Pacheco discutem religião e referências negras em mesa

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Lázaro Ramos e Ronilso Pacheco discutem religião e referências negras em mesa


Em um encontro marcado pela sensibilidade, o ator e escritor baiano Lázaro Ramos e o teólogo carioca Ronilso Pacheco se reuniram para discutir as múltiplas dimensões da negritude em meio ao grande público no palco Petrobras neste domingo, último dia da Feira do Livro.

A jornalista Adriana Ferreira Silva mediou o diálogo, conduzindo a conversa com atenção às narrativas de ambos. Ramos, que conquistou o público com sua atuação e recentemente lançou “Na Nossa Pele: Continuando a Conversa” pela Objetiva, revisitou memórias familiares com uma escrita marcada pela emoção.

Segundo ele, escrever é um gesto voltado ao presente. “Escrevo para nosso tempo. Não sei se meus livros serão atuais daqui a 20 anos, meu interesse é escrever sobre hoje.” O ator diz que a decisão de escrever não nasceu de um desejo de ser publicado, mas de uma “carga emocional tão grande” que o levou a acreditar no poder de sua visibilidade para ampliar debates urgentes.

Em “Na Nossa Pele”, Ramos escolheu narrar a trajetória da mãe enfocando não apenas o sofrimento. “Decidi escrever a história dela para além de sua vida difícil, havia também muita beleza para ser contada.”

O artista citou referências que marcaram sua visão, como bell hooks, Maya Angelou e Beatriz Nascimento, e defendeu a ideia de uma “poética do acolhimento estratégico ativo” para inspirar o leitor a ser protagonista da própria história: “Minhas obras têm todas uma proposta de protagonismo, de chamar as pessoas para não serem só plateia em suas histórias”, disse.

Ronilso Pacheco, autor do livro “Teologia Negra: O Sopro Antirracista do Espírito”, da Zahar, ofereceu uma reflexão que dialoga com pensadoras como Delores Williams e Alice Walker. Recordou que sua trajetória espiritual começou no protestantismo, embora tenha raízes vivas nos terreiros de candomblé.

“Apesar de a minha família frequentar terreiros há muito tempo, sempre convivemos muito bem com amigos evangélicos. Tanto que minha conversão não significou um arrebatamento imediato de um encontro com Jesus, foi algo muito natural.”

Pacheco destacou a importância histórica do protestantismo negro como um movimento de valorização e resistência. “Há questionamentos sociais que partiram da comunidade protestante negra e que foram muito importantes para a história do mundo. Foi um movimento de revolta, mas também de muito amor.”

Sua jornada intelectual teve início precoce. “A leitura mexia com a minha capacidade imaginativa, o que contribuiu para estremecer os limites entre a realidade que era possível para mim e a realidade que eu sonhava”, contou ele, que já lia Dostoiévski aos 15 anos. “Quando percebi que havia algo em minha pele que fazia minha vida ser diferente, minha concepção do mundo passou a ser diferente.”

Ambos concordam que o Brasil ainda impõe limites pela cor da pele, tornando a luta por emancipação um processo longo e contínuo. “Minha casa não era letrada racialmente, mas minha família cultivou em mim valores importantes para minha emancipação, como autoestima e reconhecimento. Quando leio notícias de assassinatos de jovens negros, percebo que uma emancipação coletiva é muito distante. Ainda é um longo caminho.”

Antes disso, na mesa “O Discreto Charme da Magistocracia”, realizada no Tablado Mário de Andrade pela Folha, o colunista e professor de direito constitucional Conrado Hübner Mendes apresentou sua crítica ao Judiciário brasileiro. Ao lado do mediador Eduardo Sombini, Mendes discutiu temas que aborda em sua coluna e no livro homônimo à mesa, lançado pela editora Todavia.

Em uma brincadeira com o nome do filme de Buñuel, o título da obra faz referência à atuação silenciosa, mas influente, dos magistrados na política brasileira. Reunindo textos publicados desde 2010 —incluindo sua estreia no jornal—, o autor busca compreender os limites e os abusos do Judiciário sem recorrer ao “juridiquês”.

“Venho de um mundo onde se escreve mal. A faculdade de direito e a prática jurídica prejudicam muito o texto. Reconhecer a má qualidade dessa escrita é importante”, afirmou.

Ao comentar o papel do Supremo Tribunal Federal no atual cenário político, Mendes disse que a instituição falhou diante da escalada autoritária dos últimos anos.

“O STF falhou em combater o autoritarismo que tanto o condena. Também não é verdade que ajudou a salvar a democracia. Em primeiro lugar porque a democracia não está a salvo, depois porque proteger o regime democrático não é mais que sua obrigação”, apontou. Segundo ele, punir os responsáveis pelos atos golpistas de 8 de janeiro “é papel do STF, não uma vitória”.

O professor alertou para o risco de que sua crítica seja confundida com clamor de setores antidemocráticos, que se posicionam contra a mera existência do STF. “Faço minha crítica reconhecendo esse tipo de ataque. Tento vacinar minha coluna para que não seja apropriada por esse tipo de discurso.”



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