José Manuel Ballester faz do mundo das artes um lugar desabitado em exposição

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José Manuel Ballester faz do mundo das artes um lugar desabitado em exposição


De repente, todo mundo desapareceu. Vênus sumiu do quadro em que Sandro Botticelli retrata o nascimento da entidade mitológica. O corpo inerte de Moema não está mais estendido sobre a praia pintada por Victor Meirelles, enquanto Jesus Cristo e os apóstolos parecem estar atrasados para “A Última Ceia”, de Leonardo da Vinci.

O mundo das artes é um lugar despovoado na releitura que o espanhol José Manuel Ballester fez dessas obras canônicas. O artista reduziu os trabalhos às paisagens naturais e arquitetônicas, transformando as formas humanas em elementos tão irrelevantes quanto descartáveis. Sai de cena o homem enquanto medida de todas as coisas e ganha evidência o vazio dos cenários desabitados.

“Durante muitos anos, eu me concentrei nos espaços, porque me chamava a atenção a cenografia contemporânea, os lugares vazios, sem presença humana. O homem me interessa por meio das marcas que ele deixa nas paisagens”, diz o artista na galeria Dan Contemporânea, onde ele reúne 62 trabalhos na exposição “Sobre Aquilo que Permanece Invisível”.

Sem as formas humanas, as obras ganham novos significados a depender do que o espectador projeta sobre elas. Um exemplo disso é a versão que Ballester fez de “Alegoria da Primavera”, pintura clássica de Botticelli.

Se a obra original é envolta por uma atmosfera dionisíaca, em que seres mitológicos celebram o desabrochar das flores, a releitura de Ballester adquire contornos bem mais sombrios.

Intitulada “Bosque Italiano en Primavera 1”, a tela traz apenas uma floresta de aspecto melancólico que parece esconder uma ameaça entre as suas árvores. É uma pintura que não anuncia a floração, mas sim o isolamento.

“A solidão é um caminho ao qual todos estamos de alguma forma obrigados a percorrer em um dado momento da vida”, diz Ballester. “Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Às vezes, necessitamos desse espaço que pode ser dilacerante ou que pode ser um alívio.”

A desolação e o isolamento, aliás, são sensações que permeiam as obras de Ballester. Por isso mesmo, algumas de suas releituras viralizaram durante a pandemia.

“Foi muito surpreendente. Eu estava trancado em Madri, quando começaram a chegar mensagens com pedidos para a utilização das obras. Em outros casos, as pessoas nem pediam.”

A releitura do quadro “As Meninas”, de Diego Velázquez, foi uma das telas mais compartilhadas. À época, os internautas postavam a obra com pedidos para que as pessoas ficassem em casa.

“A gente lança uma mensagem, mas ela pode ser percebida de muitas maneiras diferentes”, afirma o espanhol, para quem artistas não têm controle sobre o modo como suas obras serão recebidas. “O trabalho tem seu próprio destino. Ele pode inclusive produzir efeitos contrários às nossas intenções iniciais. Isso também é a magia da arte.”

Para Luiz Armando Bagolin, curador da mostra, as obras de Ballester chamam a atenção justamente por serem como telas em branco. “O que o artista faz é limpar a cena para que a gente possa reabitar esses ambientes com os anseios do nosso tempo”, diz Bagolin, que também é professor do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

Além disso, diz o pesquisador, a ausência de figuras que remetem ao ser humano faz com que o espectador amplie a própria percepção sobre as obras. “A imagem passa a mostrar outros elementos que sempre estiveram lá, mas que a gente nunca percebeu.”

A produção do espanhol, porém, não traz apenas telas desabitadas. Algumas de suas obras preenchem pinturas emblemáticas com novos elementos. É o caso de “Jardin del Arte”, em que o artista atualiza “O Jardim das Delícias Terrenas”, de Hieronymus Bosch.

O tríptico do holandês retrata a criação do mundo em três cenários, indo da inocência do Éden, passando pelos pecados da terra até chegar às agruras do inferno. Ballester, por outro lado, se voltou à história da arte, tomando de empréstimo elementos que fazem parte de pinturas célebres.

No Jardim do Éden, ele fez referência à filosofia e ao conhecimento inserindo pinturas como “A Escola de Atenas”, de Rafael Sanzio. Já no mundo terreno, o espanhol recorreu a obras que põem a materialidade em evidência, a exemplo de “Davi”, escultura de Michelangelo. No inferno, ele incluiu obras que denunciam as nossas mazelas, como “Guernica”, de Pablo Picasso.

É como se “O Jardim das Delícias Terrenas” servisse de refúgio ou de purgatório para as figuras que sumiram das releituras de Ballester. “Eu quis abrir o espectador e a mim mesmo para o mundo de possibilidades que se escondia nesses trabalhos”, diz o artista. “Por trás de cada obra, há infinitas opções.”



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