John Graz, designer pioneiro no Brasil, é tema de mostra com desenhos inéditos

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John Graz, designer pioneiro no Brasil, é tema de mostra com desenhos inéditos


Quando criava os projetos de decoração de interiores para seus clientes, John Graz desenhava tudo —o sofá minimalista de linhas retas, o tapete amarelo no meio da sala, o buffet acoplado a uma estante, o afresco com motivos marítimos na parede, o vaso transparente com a planta dentro e o cinzeiro ao lado, ambos sobre a mesa de centro.

Nenhum detalhe escapava ao traço do designer, considerado um pioneiro de sua profissão no Brasil, onde se estabeleceu com 28 anos depois de deixar a Suíça na década de 1920. Aqui, Graz introduziu o mobiliário de inspiração art déco —peças de formas geométricas produzidas em madeiras nobres— e fez carreira criando ambientes para casas de barões do café e donos de construtoras.

Parte de seu trabalho é bastante conhecida, como os móveis tubulares —poltronas com canos metálicos nos encostos dos braços—, e os ambientes que fez para as casas projetadas pelo arquiteto Gregori Warchavchik, nome central do modernismo brasileiro. Isso foi registrado em fotos e o mobiliário, preservado em coleções e exposto em museus.

Mas a produção de Graz das décadas de 1950 e 1960 era um pequeno tesouro a ser descoberto. Os móveis, a maioria peças únicas feitas sob encomenda, se perderam conforme os clientes mudavam de casa ou morriam. Os desenhos, sejam os estudos de uma poltrona ou a composição de uma sala de estar inteira, ficaram empilhados na mesa de trabalho de Graz até pouco antes de sua morte, em 1980.

Agora, uma exposição, um livro e um documentário jogam luz sobre esta parte do trabalho do designer, até então restrita à família e aos poucos abastados que tiveram uma peça sua em casa. A galeria Dpot, em São Paulo, exibe, em painéis iluminados, os desenhos de ambientes de Graz, enquanto lança, junto à editora Monolito, um volume com a reprodução das ilustrações e a história de seu criador.

Afora isso, um filme disponível online reúne depoimentos de especialistas na obra do designer, traçando seus passos e debatendo seu legado. O pacote de lançamentos acontece no momento em que grande parte do acervo de Graz passa da família para a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, o IEB —são mais de 1.600 obras em papel, incluindo estudos, desenhos e guaches.

A ideia é que o material fique disponível para estudo, pesquisa e difusão da obra de Graz, diz Claudia Taddei, neta do designer e uma das responsáveis pelo Instituto John Graz, que organizou e catalogou os trabalhos do artista depois de sua morte. O IEB tem conhecimento e estrutura para preservação de acervos modernistas —estão sob a guarda do instituto, por exemplo, os arquivos pessoais da pintora Anita Malfatti e os do escritor Mário de Andrade.

“O John [Graz] compunha os ambientes e apresentava para os clientes dele como se fosse uma pintura. Em cima dos desenhos, à lápis, ele pintava em guache. A grande maioria desses desenhos a gente não sabe se foram realizados ou se foram só parte do processo criativo dele”, afirma Taddei.

Baba Vacaro, diretora criativa da Dpot, chama a atenção para o fato de que os desenhos traziam as medidas dos móveis e os tipos de madeiras a serem empregados na sua construção, indícios de que as peças foram fabricadas, embora não haja documentação fotográfica.

As imagens de ambientes e mobiliário de Graz se concentram nas suas primeiras duas décadas de atuação no Brasil, mas a partir dos anos 1950 ele parou com os registros, não se sabe bem por quê.

Os móveis projetado por Graz, produzidos sob encomenda no Liceu de Artes e Ofícios, eram exclusivos para seus clientes e não tiveram fabricação em série. Isto contribui para a dificuldade na atribuição de autoria de peças supostamente desenhadas pelo suíço. “Não há documentos que comprovem”, afirma Vacaro.

A exceção é uma poltrona, editada pela Dpot em 2013, que tem um desenho técnico de época no qual consta a palavra “definitiva” e da qual se tem a certeza da autoria.

Como designer, Vacaro coordena o lançamento de móveis de Graz a partir da interpretação dos desenhos, dado que não se tem acesso aos móveis originais. Além da poltrona, estão no mercado uma mesa de centro, a clássica cadeira “3 Apoios”, sustentada, como o nome diz, por três pés, um sofá e uma cadeira para mesa de jantar. Todas as peças aparecem em mais de um projeto.

Nascido em Genebra, onde iniciou a formação em arquitetura, decoração e desenho, Graz depois estudou na Alemanha e na Espanha antes de se mudar para o Brasil, casado com a artista Regina Gomide, que seria reconhecida pelas suas tapeçarias.

Em São Paulo, virou uma importante figura do meio intelectual —publicou na revista modernista Klaxon e participou da Semana de Arte Moderna de 1922, a convite de Oswald de Andrade, com sete telas que pintou na Suíça. Foi a partir desta agenda de contatos privilegiada que formou sua clientela.

A exposição na Dpot estava programada para acontecer no Museu da Casa Brasileira, mas a instituição foi fechada pelo governo do Estado no ano passado e, até agora, não tem nova sede.

Independente disso, a mostra tem relevância por trazer à tona uma característica única de Graz, sua capacidade de projetar o design total. “Ele era realmente pioneiro. Esse jeito de criar —os pisos, os tapetes, as estantes, tudo”, diz Vacaro. “Era um negócio.”



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