Joaquín Torres García construiu um alfabeto muito particular. No lugar de letras e palavras, seu vocabulário era formado por quadrados, triângulos e linhas retas. Sobre a tela, essas figuras deram origem a pinturas que dialogavam com a abstração geométrica –vanguarda nascida na Europa, no começo do século 20. No entanto, se esse movimento primava pelo silêncio da geometria, o uruguaio infundia em suas telas o barulho do cotidiano.
Esqueça a frugalidade das obras mais famosas de Kazimir Malevich ou a organização quase obsessiva das pinturas de Piet Mondrian. O que vemos na produção do uruguaio é a forma a serviço da vida. Isso se faz sentir a partir de figuras que remetem a casas, animais e seres humanos. A abstração geométrica até podia ser de origem europeia, mas Torres García deu a esse estilo um sotaque latino-americano.
As diferentes inflexões da linguagem artística do pintor estão reunidas agora em uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, na capital paulista. A mostra leva ao público cerca de 500 itens, entre maquetes, desenhos, pinturas e manuscritos nunca antes expostos. Há também alguns de seus livros, como “Historia de Mi Vida” e “La Ciudad Sin Nombre”.
Em meio a essa ampla seleção, o que se impõe são as telas que fazem parte da fase geométrica do artista. O contato com essa vanguarda se deu quando ele morava em Paris, onde fundou ao lado de Piet Mondrian o grupo Cercle et Carré —círculo e quadrado, em português.
Torres García, porém, não queria apenas mimetizar um movimento europeu. Por isso, introduziu elementos de culturas africanas e da arte pré-colombiana, rompendo com o purismo tão característico da abstração geométrica.
Para ele, essa vanguarda devia ser mais do que a reprodução fria de triângulos e quadrados. Na verdade, ela devia incluir formas e símbolos comuns a diferentes civilizações, formando uma linguagem que pudesse ser entendida de forma universal.
Torres García batizou esse princípio de universalismo construtivo, um de seus conceitos mais importantes. “É a geometria para o humano num estado de pré-palavra e pré-pensamento”, diz Saulo di Tarso, curador da mostra. “O fundamental na abstração dele se edificou sobre uma simbologia marcada pela pluralidade de povos.”
A exposição no CCBB reflete a natureza plural do fazer artístico de Torres García. O projeto, que marca os 150 anos de seu nascimento, inclui obras de artistas proeminentes, como Cildo Meireles, Anna Bella Geiger, Emmanuel Nassar e Hélio Oiticica.
Ao comparar alguns dos trabalhos, fica evidente como o pintor antecipou movimentos que só se tornariam tendência após a sua morte, em 1949.
O uso recorrente da madeira despida de qualquer disfarce faz lembrar a rusticidade da arte povera –vanguarda que surgiu na Itália, na década de 1960.
Já a ênfase em uma arte que tem a América Latina como ponto nevrálgico dialoga com a decolonialidade, conceito tão em voga atualmente. Esse movimento rompe com um passado colonial para reivindicar o protagonismo e a autodeterminação de países emergentes.
“Essa exposição é um grande recado para uma geração que diz ser decolonial, mas que esqueceu que seus ancestrais da América do Sul foram os pioneiros nesse pensamento”, diz Tarso, o curador.
A verve decolonial de Torre Garcia pode ser percebida em “América Invertida”, célebre gravura de 1943 em que o artista propôs uma nova cartografia. Para isso, ele imaginou o continente sul-americano de cabeça para baixo, chacoalhando uma ordem geopolítica baseada em séculos de primazia do Norte sobre o Sul.
“Agora colocamos o mapa ao contrário, e assim temos uma justa ideia de nossa posição, e não como querem o resto do mundo”, escreveu o artista. “A ponta da América, a partir de agora, prolongando-se, aponta insistentemente para o Sul, o nosso Norte.”
Na exposição do CCBB, a gravura inspirou uma grande escultura preta que pende sobre o público no átrio do prédio.
Tarso afirma que “América Invertida” foi capturada por visões políticas e partidárias, mas que a obra não deveria ser reduzida a um panfleto ideológico.
“No fundo, esse trabalho mostra que nós temos direito a uma liberdade muito superior a qualquer localização geográfica”, diz ele. “É um entendimento que vai além e antes da polarização política.”
A vontade de criar uma arte desvinculada dos grilhões coloniais fez Torres García fundar a Escola do Sul –um ateliê em que compartilhava seus ideais e sua prática artística com os mais jovens.
Embora tivesse grande ligação com a terra natal, ele levou uma vida nômade durante a juventude. Em 1891, aos 17 anos, deixou Montevidéu e se mudou com a família para a Espanha, onde morou em Barcelona. Nesse período, desenvolveu um estilo fortemente calcado no classicismo.
Essas obras evidenciam uma herança clássica sempre insinuada, mas nunca explicitada de forma óbvia. “São trabalhos que mostram não uma cópia desse estilo, mas sim uma compreensão “, diz Tarso.
Em 1920, ele se mudou com a mulher e os filhos para Nova York, onde começou a fabricar brinquedos para sustentar a família. Batizados de “juguetes transformables”, os objetos eram desmontáveis, de modo que as crianças podiam construir novas formas a partir da troca de peças.
O que começou como meio de subsistência passou a ser visto como obra de arte. Não à toa, os juguetes ocupam lugar de destaque na exposição do CCBB.
Esse ofício deu tão certo que o artista formou uma sociedade com outros profissionais do ramo e construiu uma fábrica para produzir os brinquedos em larga escala. Em 1925, no entanto, a produção do uruguaio foi incinerada após um incêndio devastar a oficina.
A ação do fogo voltaria a ameaçar o legado do artista uma segunda vez. Dessa vez, porém, a tragédia não foi nos Estados Unidos dos anos 1920, mas no Brasil da ditadura militar.
Em 1978, um incêndio de grandes proporções destruiu quase todo o acervo do MAM, o Museu de Arte Moderno do Rio de Janeiro, incluindo 80 telas de Torres García.
“Um dos elementos que me inspiraram a fazer essa exposição foi o incêndio”, diz o curador. “É por isso que convidei tantos artistas de quilate histórico para promover uma espécie de festa, onde Torres García possa nos olhar e nós possamos observá-lo também.”
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