Jacques Ribemboim: o tiro saiu pela culatra

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Jacques Ribemboim: o tiro saiu pela culatra



É provável que a propaganda em favor do governo termine como uma “antipropaganda”, algo do tipo “feitiço virar contra o feiticeiro”

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O desfile da “Acadêmicos de Niterói” deixará um legado pernicioso às eleições, atenuado, talvez, pela possibilidade de o tiro sair pela culatra. Primeiro, porque a escola usou dinheiro público para fazer apologia partidária e campanha antecipada, o que evidencia crime eleitoral. Segundo, porque atacou amplos setores da sociedade, ridicularizou a religião cristã e a família tradicional, justo no momento que o país mais precisa de pacificação ou, ao menos, atenuação das contendas ideológicas.

É provável que a propaganda em favor do governo termine como uma “antipropaganda”, algo do tipo “feitiço virar contra o feiticeiro”. Poderá, inclusive, fortalecer a oposição e subtrair votos que antes seriam destinados ao pré-candidato dos sambistas travessos. Votos dos que ainda acreditam em fórmulas mágicas petistas, mesmo após quase duas décadas de políticas fracassadas, com ciclos de crescimento seguidos de decrescimento, insustentabilidade e programas mal ajambrados.

Foram dezoito anos, para ser mais preciso, desde 2002. É praticamente o tempo de uma geração. Os jovens com menos de trinta anos sequer sabem que existe vida fora do binômio Lula-Dilma. Cresceram com essa dupla, acostumaram-se a ela, padeceram inocentemente do mesmo populismo. O hiato preenchido por Michel Temer na vacância do impeachment não foi mais que um mandato-tampão, herdando uma economia em frangalhos, e o período de Bolsonaro foi completamente obliterado pela pandemia.

O resultado deste empurra-empurra de déficits orçamentários para a conta do amanhã já se faz sentir. Basta olhar à volta, no número crescente de pessoas em penúria nas calçadas, mesmo em cidades onde a população está diminuindo. Os governos continuam sem capacidade de investimento e o setor privado se mantém cauteloso contra mudanças de regras.

Durante o carnaval, a grande mídia informava que a agremiação defensora do presidente fora favorecida com um milhão de reais provenientes do erário federal. Perguntemo-nos se isso aconteceria em alguma democracia séria deste planeta, uma Dinamarca, um Japão, uma Alemanha. Escolas de samba financiadas pelo Estado para promover os governantes justo em ano eleitoral?

Pior que tudo, Lula se fez presente à homenagem, decidiu prestigiar a apresentação e aplaudir a curriola. O público, sem entender direito o que se passava, parecia até a égua Quitéria, do romance de Orwell, olhando confusa para os homens e para os porcos, mas já sem conseguir distinguir quem era homem quem era porco.
Enquanto isso, nas redes sociais, um sem-número de intelectualoides elogiavam a “criatividade”, acusando de hipocrisia a “família burguesa”. Mas imaginemos o contrário, se houvesse uma turma na Sapucaí ridicularizando Lula e as religiões de matriz africana ou inserindo homoafetivos em latas de sardinha. Claro que isso tudo seria errado, mas neste caso os responsáveis seriam presos e o governante se tornaria inelegível.

Disso não há dúvidas. Essa assimetria de avaliação entre tantos artistas e escritores, que contagiou de há muito o topo do Judiciário reforça o atraso do Brasil e põe em risco as instituições. L’hypocrisie est tojours celle des autres.

De qualquer modo, na Quarta-Feira de Cinzas, ao término da apuração das notas (com um júri que mais parecia uma professora primária distribuindo dez aos alunos para não receber queixa dos pais) constatou-se o último lugar para a Acadêmicos de Niterói, rebaixada nas festas de momo do ano que vem.

Jacques Ribemboim, escritor



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