Depois da morte violenta de mais de 120 pessoas numa operação policial, colaboração anunciada entre os governos federal e estadual precisa evoluir
JC
Publicado em 30/10/2025 às 0:00
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A indignação faz parte do luto. E depois da maior operação policial já realizada em comunidades populosas no Rio de Janeiro, com as forças do Estado em ataque planejado contra uma facção do crime organizado, o que resta da matança de mais de 120 pessoas é a impressão de que não se pode mais prosseguir nesse caminho sem integração. Não se trata de um governo estadual, é do povo do Rio submetido aos bandidos. Não se trata da decisão isolada de um governador, mas do rumo coletivo que estamos dispostos a trilhar para que a segurança encontre o bem-estar da população. Não se trata mais de uma unidade da federação, é do país que precisamos cuidar e proteger da contaminação dos negócios escusos – que também precisam ser punidos no topo da escala da criminalidade, e não somente no patamar dos quem moram e se escondem nas comunidades.
Em anúncio cercado de expectativas, pela gravidade do momento que expõe o Rio de Janeiro e o Brasil, de modo negativo, no plano internacional, o governador Cláudio Castro e o ministro Ricardo Lewandowski conversaram sobre o ocorrido, e resolveram criar um escritório emergencial de enfrentamento ao crime organizado. O que não disseram não deixa de ser impactante, pelo silêncio constrangedor para qualquer governante eleito democraticamente, diante de tantos cadáveres resultantes de uma escolha pensada e tomada – da violência contra a violência.
Para atender ao cidadão e vencer a burocracia, a iniciativa deve buscar maior permanência de planos e ações em defesa da segurança, sem focar apenas no ataque como resposta. Se a integração é urgente – integração de polícias, de informações e de governos – o combate ao crime organizado no Brasil terá chance de ser eficiente quando não for tão somente vislumbrado como providência emergencial, e portanto, sob a pecha do improviso. Se foi positiva a reunião do governador do Rio com o ministro da Justiça, esse tipo de encontro precisa ser a regra, e não, a exceção no auge de uma crise cujas proporções ainda nem discernimos, tamanha é a falta de clareza sobre o que aconteceu.
Até o governador, que celebrou o sucesso da operação com indisfarçada euforia, no primeiro instante, revelou desconforto com as repercussões, dentro e fora do país, que qualificam sua decisão como chacina. “Para não deixar que o que aconteceu desta vez aconteça de novo”, disse o governador, ao anunciar a criação da força-tarefa conjunta com o governo federal, ao lado do ministro da Justiça.
Em comentário preparado para não sair diretamente de sua fala, mas escrito nas redes sociais, o presidente Lula corroborou a necessidade da integração, para que os brasileiros de todos os estados vejam a segurança como sinônimo de paz. “Precisamos de um trabalho coordenado que atinja a espinha dorsal do tráfico sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco”, afirmou. A PEC da segurança pública está no ponto de ser aprimorada e aprovada no Congresso. E um de seus principais atributos é a integração do combate ao crime. A intenção, que parece consenso, tem que sair do papel e dos discursos.

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