Miguel Falabella está com 68 anos. Marisa Orth, com 61. Pode não parecer, já que os trechos de “Sai de Baixo” circulam sem cessar na internet. Mas o programa começou há quase três décadas, em 1996, e acabou há mais de duas, em 2002. Dá para entender, então, quando Falabella assume um tom mais sentimental ao falar de “Fica Comigo Esta Noite”, peça que circulou em Portugal no ano passado e estreia nesta quinta-feira (24), em São Paulo.
“A peça ganha uma dimensão muito bonita e humana com nós dois mais velhos”, afirma o ator, ao lado de Orth, logo após um ensaio. “Eu me emociono toda noite. É como se eu tivesse me despedindo dela.” “Para de palhaçada”, diz a atriz.
“Fica Comigo Está Noite” foi escrita por Flávio de Souza, um dos mestres da televisão infantil brasileira, criador de “Mundo da Lua” e dos programas “Rá-Tim-Bum”. Na obra que entra em cartaz, se dirige aos adultos ao contar a história de um morto e sua esposa.
Enquanto o velório ocorre no quarto do casal, os dois personagens recebem as visitas —invisíveis para o público— que vêm lamentar o fim do defunto, que circula pelo palco, dividindo seus pensamentos com a plateia. Somente na segunda parte da peça, quando os visitantes já saíram de cena, o casal consegue enfim conversar.
Orth conhece bem essa história. Subiu ao palco com ela em 1988, aos 25, no antigo Teatro Igreja, no Bexiga, centro de São Paulo, numa montagem dirigida pelo próprio dramaturgo. Carlos Moreno fazia então o finado marido.
“Foi o meu primeiro convite profissional importante. Eu lembro que eu morava na casa dos meus pais, bem moleca ainda. E foi muito fluente, maravilhoso, o maior sucesso. Foi a peça que me revelou.”
Dezoito anos depois, quando ela tinha 43, o ator Murilo Benício e o diretor Walter Lima Jr. a convidaram para uma nova montagem do texto. Agora, ela volta a sua personagem passados outros 18 anos. “Com 80 eu faço o morto. Eu vou amar.”
Orth diz que sua relação com a peça mudou entre as três montagens. Coisas que a tocavam já não a comovem, e passagens antes ditas da boca para fora ganharam outro peso. “Eu diria que eu valorizava mais o romance, e agora penso mais na morte.”
Quando Falabella conheceu Orth, a atriz se formava na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, no antigo Tusp, o teatro da faculdade, então no bairro do Itaim Bibi. Para marcar a conclusão do curso, sua turma encenava “Criança Enterrada”, do americano Sam Shepard.
“Tinha uma velha maravilhosa”, o ator afirma. “E eu dizia, ‘mas como é que eu não conheço essa mulher?’ Para ser tão boa atriz, deve ter feito muita Tupi. Quando acabou a peça, fomos aos camarins e a velha era uma menina de 23 anos.”
Os dois se reencontraram mais tarde nos estúdios da Globo, no Rio de Janeiro, quando ele atuava para a novela “Mico Preto”, e ela, para “Rainha da Sucata”, ambas de 1990. Se aproximaram a partir daí e estrearam como dupla no palco em 1991, com a peça “Algemas do Ódio”.
“Ainda que sejamos muito diferentes, temos uma coisa profissionalmente muito parecida. A gente chega lá e faz. E o público sabe disso”, diz Falabella.
Mas foi o “Sai de Baixo” que elevou os dois a patrimônio nacional. Lá, eles eram Caco e Magda Antibes, um casal ricaço em decadência, reduzidos a moradores do Largo do Arouche após perderem sua mansão pelas falcatruas de Caco.
Hoje, quem vê a série, ou outros títulos antigos da emissora, no Globoplay, se depara com um aviso: “Essa obra pode conter representações negativas e estereótipos da época em que foi realizada.”
O nome de Caco, o personagem de Falabella, pipocou algumas vezes no recente debate sobre a condenação do humorista Leo Lins a mais de oito anos de cadeia por piadas consideradas preconceituosas. O ator, responsável por outros programas controversos, como “Sexo e as Negas”, diz que o medo da repercussão das tiradas do programa não é novo.
“Teve confusão quando eu comecei com essa história do Caco Antibes não gostar de pobre, só que foi um sucesso tão avassalador que ninguém mais falou nada”, afirma. Ele, no entanto, não considera que Leo Lins e seu personagem estão na mesma categoria.
“O Caco tinha essa pegada de extrema direita, de um racista violento, mandava a mulher calar a boca, mas era feito com muita leveza. E ele era um fodido, né? Não era o que batia, ele apanhava para cacete. Se deu mal a vida inteira. Tinha essa válvula de escape.”
Os dois atores dizem que o que viram do trabalho do humorista é muito pobre, e que ele apela para ofensas a grupos minoritários por não ser bom. Mas o pior, dizem, é haver público interessado e pagante.
“Proibir é complicado, eu acho que entramos num terreno muito perigoso”, diz Falabella. “Eu acho que é uma questão de bom senso, de bom gosto, civilidade. Eu não vou ver o show desse cara, porque ele não tem nada para me dizer.”
Como em sua entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, exibida na semana passada, Orth questiona se multas poderiam ser caminhos melhores para responder a esse tipo de situação. Ela também afirma que discussão é complexa e exige um conhecimento jurídico maior do caso. “Cadeia gera mártires. Coisa chata. Faz piada boa, meu”, diz.
As opiniões de Orth e Falabella sobre o estado do humor se encontram e desencontram ao longo da entrevista.
Como lembra a atriz, as décadas passadas viram surgir Fabio Porchat, Ingrid Guimarães, Marcelo Adnet, entre outros. “Eu gostei muito dessa valorização do humor que trouxe essa turma. De repente, meu filho achava o humor chiquérrimo. E os textos melhoraram muito.” Mas o momento já é outro, e ela diz ainda estar tentando entender os novos caminhos da comédia.
Falabella é menos otimista. Ainda que menospreze piadas como a de Leo Lins, diz que são tempos difíceis para o riso. O medo de cancelamento atrapalha a criação e ajudou a criar as grandes salas de roteiro, com muita gente opinando nos rumos de cada história, o que acabaria descaracterizando o texto.
“Você pode gostar ou não do meu trabalho, mas você não pode dizer que eu não sou uma pessoa autoral. Se você tira o Falabella do Falabella, não sobra muita coisa”, afirma.
Para ele, o ambiente digital, mais do que revelar novos talentos, abriu uma caixa de Pandora.
“Não há mais dramaturgia, meu querido. Há uma exibição. A minha vizinha é mais comediante do que eu. As pessoas todas ficaram loucas”, afirma. “Sem tirar o mérito, porque tem muita gente talentosa. Mas é uma histeria coletiva de todo mundo ter que ser visto.”
Outra face do problema, segundo o ator, é um certo emburrecimento generalizado —e nisso ele tem o apoio de Orth. “Para se entender e fruir um bom humor, você precisa ter referência, senão você não vai achar graça naquilo que eu estou falando. E que referência você vai ter, se você não sabe nada? As pessoas não sabem mais nada.”
Apesar das questões, Orth e Falabella seguem em movimento. Para além dos palcos, Falabella volta à Globo pela primeira vez desde o fim de seu contrato, em 2020, para participar da novela “Três Graças”, a próxima novela das nove, após o fim de “Vale Tudo”, em outubro.
É a primeira vez do ator no horário nobre das novelas desde 2002, quando participou de “Agora É que São Elas”. Seu personagem do novo folhetim é um homem gay, dono de uma galeria de arte com seu marido, personagem do ator Samuel de Assis. Ele diz que, até onde sabe, sua participação será esporádica na trama e que ele terá uma filha adotiva.
“Achei o convite interessante, até para que as pessoas não achassem que ficou alguma coisa por resolver, porque não ficou”, ele afirma. “Foi bom voltar a ver os poucos remanescentes que ainda tem lá no Projac. Você não pega 38 anos, empacota e não aconteceu nada. Eu passei toda a minha vida ali dentro.”
Também diz gostar da ideia de responder aos pedidos de uma geração mais velha que, em sua leitura, ficou órfã de suas estrelas. “Claro que tem que haver renovação, TV é uma mistureba mesmo, é pop. Mas eu acho que tem o nosso espaço lá, que nós conquistamos ao longo desses anos.”
Falabella diz nunca ter esperado que sua relação com a Globo fosse vitalícia. Leitor de biografias, afirma conhecer bem as histórias das estrelas hollywoodianas que em um dia eram sensações mundiais e, no outro, estavam fora dos holofotes.
Após a ruptura, se dedicou a projetos em parceria com plataformas de streaming, como o Disney+ e o Prime Video, aos musicais e a sua longeva relação com Portugal. Foi por um convite de produtores de lá, inclusive, que a nova montagem de “Fica Comigo Esta Noite” surgiu.
Do mesmo jeito, Orth diz que já tinha visto nos contratos de trabalho com a emissora mais curtos dos últimos anos um sinal de que deveria se organizar para a vida pós-plim plim. “Sempre fiz muito teatro, muita música, sempre tive um pé meio fora. Mas é bom também estar livre.”


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