Há desacerto administrativo, mas não crise, diz secretário sobre Theatro Muncipal

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Há desacerto administrativo, mas não crise, diz secretário sobre Theatro Muncipal


Neste fim de ano, a política cultural paulistana foi marcada por embates ideológicos, dentro e fora dos palcos. Mas o secretário municipal de Cultura de São Paulo, o emedebista Totó Parente, afirma que não há uma crise no Theatro Municipal de São Paulo, um dos aparelhos mais importantes da cidade.

“Isso é do nosso fla-flu, né, cara? Essa coisa ideológica estúpida que o Brasil insiste em continuar”, diz o secretário em entrevista à Folha.

“Como que tem crise se nós recebemos 1,3 milhão de pessoas em visita guiada ano passado? Como que tem crise se a lotação do teatro foi praticamente 100% durante todo o ano?”, diz. “Tem algum desacerto administrativo, mas não tem crise. O teatro está funcionando.”

Em setembro do ano passado, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) pediu que a Fundação Theatro Municipal rompesse o contrato com a entidade gestora, a organização social Sustenidos. O motivo teria sido a postagem de um funcionário da OS, que republicou nas redes sociais um vídeo afirmando que Charlie Kirk, apoiador de Trump morto naquele mês, era nazista.

“Tenho nojo de quem tripudiou da morte do neto do Lula e de quem tripudiou da Preta Gil. Eu sou ser humano. Não é porque o cara é de direita que eu vou tripudiar da morte dele”, diz Totó Parente. “Eu liguei na hora para a diretoria [da Sustenidos] dizendo ‘olha, cuidado, afaste o funcionário porque é [uma questão de] imagem’”, diz.

Mas a promessa de Nunes não foi para frente, e o prefeito preferiu esperar e lançar um edital para escolher uma nova entidade para gerir o teatro. “Chegamos à conclusão de que era melhor colocar o edital na rua e esperar que a nova OS entrasse”, diz.

O edital foi, enfim, lançado no começo de dezembro, mas suspenso, poucas semanas depois, pelo Tribunal de Contas do Município. Entre os pontos levantados estavam a falta de fundamentação técnica para o valor do contrato de R$ 663 milhões e a redução expressiva das metas artísticas sem justificativa. Desde então, a Fundação Theatro Municipal avalia os apontamentos para tomar as medidas cabíveis.

Esse foi o capítulo mais recente de uma novela que se intensificou nos últimos meses do ano, e que teve vaias a uma montagem pouco ortodoxa da ópera “Macbeth”, protestos de corpos artísticos da casa —com direito a um músico afastado pelas críticas— e manifestações de vereadores conservadores, aliados a Nunes, contra a Sustenidos por uma suposta doutrinação ideológica.

O secretário de centro defende os parlamentares. “É natural. Já fui vereador de oposição. Eu reclamava de tudo”, afirma. “Eles têm que expressar a sua opinião. É a opinião de uma parcela do eleitorado que o elegeu.”

Quem não pôde expressar suas controversas opiniões em São Paulo foi o rapper Kanye West. Em novembro, um show dele aconteceria no Autódromo de Interlagos, mas foi cancelado após conflitos entre a produtora e a Prefeitura. A gestão Nunes afirmou que desistiu de ceder o espaço devido ao histórico de polêmicas de West.

Nos últimos anos, o músico fez declarações consideradas antissemitas, racistas e de exaltação do nazismo, além de ter lançado uma música chamada “Heil Hitler”, banida por plataformas como o YouTube e o Spotify.

Parente nega que a decisão do cancelamento do show tenha partido dele, mas endossa o sinal vermelho. “Existe uma lei no Brasil que proíbe apologia do nazismo, passível de prisão. Ponto. Tem uma lei federal”, diz. “Eu não sei se a data estava confirmada. Houve problema de patrocinador, pouca adesão de público e poucos ingressos vendidos. [A negociação] não estava 100% amarrada com o autódromo.”

Procurada, a produção do show nega que tenha havido baixo interesse. “Estava tudo andando 100%”, diz Guilherme Flamínio, empresário responsável pelo show, e que ainda busca alternativas para viabilizar o evento —afinal, o cachê de US$ 5 milhões, cerca de R$ 27 milhões, já foi pago.

Ainda falando das últimas bombas que caíram na virada do ano, Parente nega que tenha havido falhas na gestão da Biblioteca Mário de Andrade, após oito obras de Henri Matisse e cinco de Candido Portinari terem sido roubadas no local, numa manhã de domingo.

O secretário afirma que foram tomadas todas as providências possíveis, mas mesmo assim o roubo aconteceu. “Temos como política não botar guarda armado em equipamento cultural. Imagina se estivesse ali criança. Entram dois ladrões e tem guarda armada. A tragédia poderia ter acontecido”, diz.

Segundo ele, todas as obras, parte do acervo municipal, têm seguro. “Nós mobilizamos imediatamente todas as forças policiais, inclusive a Polícia Federal e a Interpol.”

Nesta semana, segundo o jornalista Rogério Gentile, do UOL, a Polícia de São Paulo finalizou o inquérito que apura o roubo e responsabilizou quatro pessoas pelo crime. Dentre elas, uma seria integrante da facção criminosa PCC. O paradeiro das obras, porém, ainda é um mistério.

Na época do roubo, o diretor da biblioteca era o também secretário-adjunto de Cultura, Rodrigo Massi. Um mês após os roubos, Luiza Helena Thesin, que era supervisora da ação cultural na instituição, assumiu a diretoria.

Parente diz que Massi é um profissional “de altíssima qualidade” e nega que a mudança tenha tido a ver com o roubo ou com o fato de o seu braço direito estar acumulando duas funções complexas. Segundo ele, a troca já estava prevista.

Embora não admita erros, diz que há espaço para melhorias. “Nós estamos renovando todo o sistema de câmeras, vamos interligar todas as câmeras internas de lá, do Centro Cultural São Paulo, do Theatro Municipal e do Centro Cultural da Juventude”, diz. “Vamos por câmera de reconhecimento facial e ligar ao Smart Sampa [o programa de videomonitoramento], com uma central de monitoramento de cada um dos equipamentos.”

“Duvido que o Museu do Louvre não tenha muito mais precauções”, afirma o secretário. “Eu já fui várias vezes, tem policiais armados com fuzis por causa de terrorismo, e, ainda assim, roubaram as peças.”

Sobre seu primeiro ano como secretário, enfim, Parente diz que “foi de aprendizado e muito diálogo”. “Agora vamos começar as entregas mais estruturadas”, afirma ele, anunciando a construção de um espaço de 1.500 metros quadrados para servir de reserva técnica no Centro Cultural São Paulo, abrigando a coleção de arte da capital paulista.

Ao trazer a pauta positiva, porém, ele não deixa de fazer um desabafo sobre as dores de um gestor público experiente. Para ele, a experiência com a reserva técnica é parecida com a de obras de saneamento, diz. “Enquanto está fazendo todo mundo reclama. Depois que faz, não dá voto nenhum, porque está tapado ali, ninguém vê.”



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