Flávio Brayaner: por uma pedagogia da memória

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Flávio Brayaner: por uma pedagogia da memória


Nossos jovens não precisam só “Lembrar”: somos nós que precisamos fazer com que essa lembrança se transforme em “Sentido”, em “Significado”


Publicado em 18/02/2025 às 6:00
| Atualizado em 18/02/2025 às 7:10



Google News



‘;
window.pushAds.push({ id: “banner-970×250-1” });
}

Estive, no dia 13 passado, no MEMORIAL DA DEMOCRACIA FERNANDO VASCONCELOS COELHO (Sítio Trindade) com a presença de representantes dos Ministérios da Justiça e Direitos Humanos, da Secretaria de Estado de Justiça e de membros do Conselho Deliberativo daquela instituição.

Ali, naquela solenidade, em que os representantes ministeriais vieram ao Recife para investigar a possibilidade de covas clandestinas de “desaparecidos políticos” nos Cemitérios da Várzea e de Santo Amaro, lhes foi entregue o relatório da Comissão da Verdade Dom Hélder Câmara.

‘;
window.pushAds.push({ id: “banner-300×350-area” });
}

O peso da memória e a interpelação do passado

A sala em que ocorreu aquela solenidade está cercada de fotografias de militantes, homens e mulheres, que lutaram e ofereceram suas vidas por uma ideia estranha e abstrata: a DEMOCRACIA!

E toda vez que entro naquela sala com fotos de pessoas torturadas, assassinadas e desaparecidas (pessoalmente discordo do conceito de “desaparecimento político”, que considero um oximoro: o desaparecimento do Outro é exatamente o fim da política: é simples violência!), quando entro ali, retomo, não posso me impedir de lembrar a célebre ORAÇÃO AOS MORTOS de Péricles diante dos caídos do Peloponeso

Numa versão livre, arrisco-me a readaptar aquela Oração, dizendo:

“Estes homens e mulheres que nos observam, nesta sala, do fundo de suas clandestinas sepulturas, assassinados(as) pelo Estado Brasileiro, provocam em mim o que Lévinas chamou de ‘interpelação incondicional’: aqueles olhos fixados em dolorosas fotografias nos pedem muito mais do que JUSTIÇA, REPARAÇÃO ou PUNIÇÃO: pedem que eu não perca minha Humanidade, e para isso eu preciso LEMBRAR”.

A importância de uma pedagogia da memória

Assim, além de justiça e punição para seus algozes, suas fotos lembram aqueles monumentos que os franceses ergueram em praças públicas com a lista dos mortos pelos Nazistas naquela localidade.

No final da lista há a inscrição “PASSANT, SOUVENEZ-VOUS!” (PASSANTE, LEMBRAI-VOS!).

Mas, do que exatamente devo lembrar? Das pessoas, dos seus nomes, do seu sacrifício?

Acho que não: devo lembrar das IDEIAS que eles defenderam e dos PROJETOS que eles abraçaram: tais ideias e projetos reivindicam uma determinada “condição humana”, aquela condição em que eu posso exercer minha autonomia moral com consciência e com liberdade e avançar em minha “humanização”, que nunca estará terminada.

Terem sido assassinados(as) por causa disso e, sobretudo, que seus corpos tenham desaparecido é a tentativa da Tirania de dizer: “sem sua sepultura, sem sua lápide, sem seu epitáfio, suas ideias serão esquecidas!”.

A estratégia do “desaparecimento” visa o “esquecimento”… O problema é, até quando nos lembraremos? Até quando restarão os últimos rastros? Quem terminará por apagá-los? Quem impedirá isso?

É exatamente aqui onde entra uma PEDAGOGIA DA MEMÓRIA.

Quando soube que alunos e alunas das redes municipais e estadual visitam constantemente aquele lugar, com o objetivo de compreender e de dar sentido à noção de desaparecimento;

De embate de ideias no espaço público;

Do que significa um projeto de sociedade em que aquela condição humana seja respeitada e realizada;

De que compreendam que a Pólis não é um lugar para aonde se vai, é algo que se leva dentro de si: uma disposição do espírito para regular os conflitos humanos pela palavra;

De que aqueles rostos que nos olham naquela sagrada sala do Sítio Trindade, naquele PANTEÃO DOS SACRIFICADOS, eles dizem aos nossos jovens visitantes que há certas ideias que, desde o início da Civilização permitem que aquilo que entendemos por HOMEM, DIGNIDADE, FIM-EM-SI MESMO, CONSCIÊNCIA DE SI e dos OUTROS deve permanecer, “ad aeternam”.

Nossos jovens não precisam só “Lembrar”: somos nós que precisamos fazer com que essa lembrança se transforme em “Sentido”, em “Significado”, em “Compreensão”.

Você, meu jovem, vive numa época que só foi possível porque ideias forjam pessoas, pessoas forjam mundos sonhados e sem isso não podemos ter um lugar no nele.

VISITANTE, LEMBRAI-VOS!

PS. Ao sair do Sítio Trindade, eu me detive alguns minutos diante do busto de Gregório Bezerra e “pedi” a ele que, com sua história pessoal, desse àquele lugar – O Memorial- a sua bênção moral e política ao sacrifício e à lembrança.

Flávio Brayner é Professor Emérito da UFPE e Visitante da UFRPE

Acompanhe as notícias do Jornal do Commercio em tempo real





Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *