Em 22 de agosto de 1991, Leonilson fez o teste para descobrir se era portador do HIV. Horas depois, teve um sono intranquilo. “Agora são duas da madrugada, acordei assustado. Comecei a tremer, a tremer, a tremer, como se estivesse com muito frio, e fiquei com medo. Estou uma pilha de nervos. Acho que não tenho nada, não”, narrou o artista para o gravador que carregava sempre.
Um mês depois, ele relatava o resultado do teste —positivo. Nas semanas seguintes, embora não pensasse no assunto 24 horas por dia, disse que o HIV era a primeira coisa a passar pela sua cabeça ao acordar. Contou não ter medo de morrer e se questionou, em palavras dilacerantes, como revelar o diagnóstico, à época uma sentença de morte, para seus pais e irmãos.
As confidências do artista que fez dos seus bordados, desenhos e pinturas um retrato da geração perdida para a Aids podem ser lidas agora num livro com a reprodução de trechos das fitas gravadas por ele nos três anos anteriores à sua morte, que aconteceu em 1993, em decorrência da doença. Caminhando na rua, em aeroportos pelo mundo ou no quarto de sua casa em São Paulo, José Leonilson registrou 19 cassetes com impressões do cotidiano, alegrias, desejos e medos. Nem todas as fitas foram completadas nos lados A e B.
Dezesseis dessas fitas serviram de base para o livro “Leonilson: Diários de uma Voz”, a ser vendido a partir de 19 de janeiro, numa tiragem de mil exemplares, exclusivamente no site do Projeto Leonilson. O volume foi editado pelo romancista e vencedor do prêmio Jabuti João Carrascoza com suporte da organização responsável pelo acervo do artista —um medalhão da arte brasileira que, desde o ano passado, tem sua obra nas mãos da toda-poderosa galeria Almeida & Dale, não envolvida com a publicação.
As gravações, deixadas pelo artista com o galerista Eduardo Brandão, com quem dividia a casa, são parte do folclore da cena artística no Brasil. Elas serviram de matriz para um livro anterior, do final dos anos 1990, cuja publicação foi barrada pela família de Leonilson, que à época não teve acesso à transcrição das gravações, segundo a sobrinha do artista, Gabriela Dias Clemente. “Este livro foi trazido para a família e para o Projeto Leonilson no calor do luto. A situação não cabe aqui a gente falar, mas não foi aprovado ser feito“, ela diz.
A negativa não impediu que “Frescoe Ulisses”, título do volume editado e organizado por Ricardo Henrique, um estudioso de literatura e amigo a quem Leonilson havia encomendado a produção do livro, fosse xerocado e circulasse de maneira informal depois da morte do editor. Este caderno de cem páginas, contudo, ficou restrito a amigos e profissionais das artes, sem nunca ir para a gráfica.
A edição que sai agora, então, traz a público, pela primeira vez, uma parte representativa dos diários falados de Leonilson —ainda que com diferenças significativas em relação à versão que já circulou, sobretudo no tocante à homossexualidade do artista, explorada com mais detalhes no livro não autorizado.
Num causo que está em ambos os livros, Leonilson vai para o banheiro de um avião se masturbar com um rapaz. Ethan, um homem “de olhos profundos” e “boca linda”, viraria uma obsessão do artista. “Como posso gostar de um cara que nem sei quem é, que mora em Jerusalém? Não tenho nenhuma referência. A gente foi ao banheiro do avião, ele gozou rapidinho. Como é que eu posso gostar de um cara assim? Estou sofrendo agora, aqui, sofrendo por causa dessa minha loucura”, disse o artista.
Esta é praticamente a única cena erótica da nova publicação, que trata seu personagem como uma pessoa profundamente melancólica que quer um namorado a todo custo, um ingênuo a sonhar com caras que não estão a fim dele. Fissurado em amores impossíveis, sem vida sexual, de repente ele aparece com Aids. O leitor fica sem entender, com a sensação de que faltam peças neste quebra-cabeça.
Por outro lado, o Leonilson do livro não publicado é mais complexo, cheio de vontade de viver, menos depressivo. Ele fantasia com um rapaz de bermuda e sem camisa que pinta a casa de um amigo, “um Rambo moreno dos olhos verdes”. Narra cenas sexuais em saunas. “Entrei na sauna a vapor, ele tava lá sentado, pelado, gostoso, com um pauzão. Ficou aquele flerte. Eu sentei perto dele, fiquei olhando pra ele, ele ficou olhando pra mim.”
Carrascoza, o editor do novo volume, responsável por selecionar e organizar as falas do artista, diz que o que tem de mais importante nas fitas está no livro. “A gente não higienizou, pasteurizou nada”, afirma. Ele acrescenta, porém, que a nova versão tem menos passagens eróticas porque algumas pessoas envolvidas não autorizaram a publicação das cenas e que “não tinha muita lógica” inventar nomes ou publicar apenas as iniciais.
Todas as pessoas aparecem com seus nomes reais ou como Leonilson as chamava, como “Al”, alcunha de Adriano Pedrosa, hoje diretor-artístico do Masp, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, que foi muito próximo do artista. Isso situa o livro numa época e num contexto específicos —o circuito da arte paulistano do início da década de 1990— enquanto serve como memória daquele período.
Carrascoza dividiu o livro em seis cadernos temáticos. Por exemplo, um é sobre Leonilson como artista e a sua relação com seus colegas de profissão e os galeristas, outro se debruça na fase do HIV e no fim de sua vida, e um terceiro trata dos seus amores de forma ampla, incluindo as amizades.
Na transcrição das fitas, o leitor acompanha as perambulações de Leonilson por Nova York, Londres, Amsterdã, Paris e numa edição da Bienal de Veneza, seus encontros com amigos em São Paulo, seu medo terrível de contrair o HIV —”ser gay hoje em dia é a mesma coisa que ser judeu na Segunda Guerra Mundial. O próximo pode ser você”— e a aventura sexual no banheiro do avião.
Eduardo Brandão, que foi muito amigo de Leonilson, conta que “ele era um cara feliz”. Segundo o galerista, a melancolia do artista era aquela que todos temos sozinhos ao dormir e também vinha de uma injustiça social contra gays e judeus, a perseguição contra grupos sociais marginalizados que tematizou tantos bordados e pinturas do artista. “Ele não era uma pessoa triste que ficava num canto. O Zé riu muito na vida.”
Brandão afirma ainda que seu amigo teve amores, dos quais era atualizado quando ambos tomavam café da manhã na casa que dividiam. Ele chama atenção para uma confusão que as pessoas costumam fazer entre artista e obra —como Leonilson abordava questões pessoais em seus trabalhos, “você acha que conhece o Leonilson intimamente”, mesmo que nunca tenha vista uma única foto dele. “Mas é um personagem.”
Gabriela Dias Clemente, a sobrinha de Leonilson e uma das responsáveis pela preservação do acervo do tio e organização do livro novo, afirma que “não existe uma publicação com a transcrição integral das fitas” e que se tem a impressão errada de que o livro dos anos 1990 é fidedigno ao que o artista narrou. Segundo ela, aquela versão foi editada e teve trechos interpretados pelo autor, além de ter confusão nas datas, checadas com as agendas do artista para a publicação atual.
Clemente afirma ainda que não se pode tomar as gravações como uma autobiografia do artista, pelo fato de elas serem esparsas e compreenderem apenas seus últimos três anos de vida. Ela argumenta que o livro publicado agora traz histórias do ponto de vista de Leonilson, não verdades absolutas sobre como as coisas aconteceram para quem conviveu com ele.
Quando os trechos foram mandados para aprovação de quem está no livro, ela conta, algumas pessoas afirmavam que as coisas não tinham se passado da maneira narrada pelo artista. Mas a versão dele prevaleceu, sem que sua fala fosse editada ou modificada. “Ali é uma verdade do Leonilson e para o Leonilson,” diz ela.
Outra diferença entre os dois volumes é que no primeiro poucas pessoas são identificadas pelos nomes —a maioria aparece como personagem da “Odisseia”, de Homero. Por exemplo, Leonilson é Ulisses, sua mãe é Hécuba e Ethan, o rapaz do avião, é Circe. Segundo Brandão, a ideia dos pseudônimos foi do editor do livro e o propósito era “criar literatura, levar a obra para um outro lugar, não ficar tão regional”. “Era a ficção do Leonilson”, ele diz.
Diferenças à parte, ambos os livros retratam um artista em ascensão que, como Cazuza na música e Caio Fernando Abreu na literatura, teve a sua vida tolhida pela Aids quando estava em ebulição criativa, aos 36 anos. Segundo Brandão, “o Zé gostava muito de viver, tinha muitos planos”.

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