Filme em Tiradentes questiona as noções do eu e da autoria em tom onírico

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Filme em Tiradentes questiona as noções do eu e da autoria em tom onírico


O novo filme de Luiz Pretti, “Antes do Nome”, tem uma série de propostas que tanto o afastam como o aproximam da proposta da seção Autorias da Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, dedicada a obras que questionam a ideia da responsabilidade artística centrada numa pessoa.

Por um lado, Pretti já é um sobrenome em evidência no cinema independente nacional já há pelo menos 15 anos. Não só por Luiz, mas também por Ricardo, seu irmão gêmeo e parceiro na direção de vários filmes, como “Estrada para Ythaca” —premiado em Tiradentes em 2010— e “Os Monstros”, ao lado de Guto Parente e Pedro Diógenes como parte do coletivo Alumbramento, hoje encerrado.

Agora, conforme as estradas solo de cada um se dividem e se reencontram, o cineasta de 43 anos, nascido no Rio de Janeiro, mas que consolidou sua carreira entre Fortaleza e Belo Horizonte —onde vive e onde abriu a produtora Errante— põe a si mesmo em evidência na cartela de abertura de “Antes do Nome”, “um filme sonhado por Luiz Pretti”.

A expressão pode parecer piegas, mas é adequada para nomear a vocação do diretor para a montagem, seja de materiais próprios e alheios, em trabalhos únicos, gostemos ou não. Dentre seus últimos trabalhos, aliás, se debruçou sobre os arquivos de Jorge Bodanzky para uma série de vídeos no Instituto Moreira Salles.

O que se vê em “Antes do Nome”, pela uma hora de filme, é um passeio pelas fronteiras entre o eu e o outro, a identidade do indivíduo, do seu coletivo e do próprio inconsciente.

As primeiras tomadas já antecipam esse tom onírico, com cenas de uma tempestade entre árvores. Ao tentar capturar o escuro, a imagem digital se esgarça em mil “pixels” avermelhados, até que por breves instantes vemos a natureza claramente à luz de relâmpagos. Será este o mundo antes das coisas?

E então somos jogados para as raízes de Belo Horizonte. Fotos e filmes antigos se alternam cada vez mais rápido conforme um trem parte na trilha sonora —a paisagem bucólica é logo tomada pelas construções e por tantos homens de faces irreconhecíveis.

O exercício aqui lembra algo dos trabalhos de Ken Jacobs, que fez uma extensa digressão sobre o primeiro cinema dos irmãos Lumière.

Noutro instante, estamos nas ruas de Belo Horizonte, em imagens capturadas por Pretti e Clarissa Campolina para o curta “Os Que se Vão”, no qual o ator Rômulo Braga vive um homem que abandonava a si mesmo, caminhando sem rumo pela cidade, se dissolvendo em outras paisagens.

Esses descaminhos são sugeridos pelo texto “off”, na narração de Bárbara Colen. É ela quem começa a pontuar as outras histórias e identidades que o tal homem desaparecido pode assumir, encontrar, cruzar.

Pode ser a de um rapaz da periferia que, pela violência estrutural, certo dia, não consegue voltar para casa. Ou ainda um menino, que desfruta do privilégio de não saber quem é, onde está, o que tem. É um belo intervalo, em que a voz de Colen dialoga com a do filho do cineasta.

Começa, então, uma segunda parte, iniciada após uma bela visão da imensidão do mar. No campo sonoro, começam a surgir relatos de experiências e sonhos que, em comum, sugerem momentos de identidade em descoberta, crise, errância, mesmo de abnegação.

Notável, por exemplo, a história de uma jovem que, aos 12 anos, fugiu de casa após uma revelação, num sonho, e quase entrou para um convento. Em contraste, vemos membros de um grupo num retiro, em transe coletivo, buscando se desligar numa espécie de ritual. Em outro momento, Pretti aposta mais na abstração a partir de outros materiais de arquivo centrados em luz, cor e movimento.

Ao introduzir a sessão, Pretti sugeriu que o público se perdesse. Ele mesmo se perdeu, disse depois —foram 12 anos entre idas e vindas para chegar a esse filme-processo.

E, apesar dos vários caminhos que “Antes do Nome” apresenta, com um pouco de paciência, podemos chegar a um final não exatamente feliz, mas capaz de despertar uma felicidade provisória em quem embarca no fluxo desse autor em abismo.

O jornalista viajou a convite da Universo Produção



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