Veleiro da família Schurmann traz tecnologias de tratamento de resíduos a bordo e impulsiona o uso de materiais reciclados na indústria
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A capital pernambucana é uma das paradas da expedição Voz dos Oceanos, iniciativa liderada pela família Schurmann a bordo do Veleiro Kat, que busca mapear e combater a poluição plástica nos mares. A passagem pelo Recife reforça o debate sobre o descarte inadequado de resíduos, um problema ambiental crônico nas zonas costeiras globais.
De acordo com o capitão da embarcação, Wilhelm Schurmann, o diagnóstico visual ao redor do mundo aponta um vilão claro: “A maior quantidade de plástico poluente que a gente vê nos oceanos e nas praias, nos lugares por onde a gente passa, é, sem dúvida, garrafa PET”.
A dinâmica de consumo desse material é apontada como a raiz da questão. “Se a gente parar para pensar, a pessoa que vai consumir fica com aquela garrafinha por apenas um ou dois segundos, talvez um minuto no máximo, e depois ela já é descartada. O problema é que, na maioria das vezes, esse descarte acaba não sendo apropriado e o plástico acaba indo parar no mar”, explica Wilhelm.
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A expedição Voz dos Oceanos é uma iniciativa liderada pela família Schurmann a bordo do Veleiro Kat – Maria Clara Trajano/JC
Tecnologias a bordo do Veleiro Kat
Como forma de dar o exemplo, o Veleiro Kat opera com sistemas avançados de sustentabilidade. A geração de energia utiliza placas solares, sistemas eólicos e hidrogeradores, que aproveitam a força da água para carregar as baterias.
O gerenciamento de resíduos e efluentes é rigoroso. “Nós também temos um sistema de compostagem, então todo o nosso lixo é devidamente separado”.
O material reciclável é lavado e processado em uma compactadora a bordo, que reduz o volume do lixo em até 80%. “Com isso, conseguimos minimizar a quantidade de resíduos e segurar tudo até chegar a um porto que tenha um local adequado para reciclagem”.
A água utilizada na embarcação passa por um sistema aeróbico e biológico, sendo finalizada por luz ultravioleta. “A água passa por lâmpadas UV que matam 99% das bactérias em uma única passada, e nós a deixamos circulando umas 20 vezes no tanque para garantir que esteja totalmente tratada. É literalmente como uma mini estação de tratamento dentro do veleiro, algo muito raro de se ter em uma embarcação desse porte”, explica.
Outro equipamento de destaque é o triturador de vidro, que transforma garrafas em um material semelhante à areia. O processo permite armazenar cerca de 200 garrafas em um balde de 20 litros.
“Na verdade, somos o primeiro veleiro no mundo a ter uma dessas, e temos muito orgulho de ter essas soluções únicas aqui no Veleiro Kat”. Em terra, o material triturado é doado para artesãos de biojoias ou destinado à construção civil.
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Reaproveitamento na indústria em Pernambuco
A passagem da expedição pelo Recife também marca a parceria com a Tramontina no desenvolvimento de soluções em economia circular, por meio da linha Oceano +Clean. A iniciativa resultou na cadeira Marina, fabricada com matéria-prima integralmente reciclada.
Toda a produção de plásticos da marca, incluindo esta linha sustentável, está concentrada em Pernambuco, operando nas fábricas localizadas nos bairros da Várzea, no Recife, e no município de Moreno.
O diretor administrativo e financeiro da Tramontina Delta — que fabrica plásticos e louças de mesa —, Igor Arregui, explica que a empresa encerrou o último ano com 1.450 toneladas de plástico reciclado processado. A fabricação da cadeira Marina exigiu adaptações.
“Trabalhar com material virgem é diferente, porque você sabe exatamente como aquele material vem da petroquímica. Quando você usa um material que é 100% reciclado, aí sim você enfrenta alguns desafios na produção, mas que vamos vencendo com a tecnologia e o conhecimento que acumulamos nesses 26 anos produzindo mesas e cadeiras de plástico”, explica.
Apesar das variáveis do processo de reciclagem, o executivo afirma que o controle de qualidade atende às exigências normativas.
“O resultado é um produto com resistência que passa nos testes; ela tem uma resistência de 154 kg, que é o padrão do mercado”, afirma.
Segundo Arregui, a iniciativa reflete a urgência do reaproveitamento. “Saber que esse material foi recolhido da praia, que ficou na areia porque a maré levou ou porque estava no oceano, nos dá uma satisfação muito grande. A empresa como um todo fica muito satisfeita de poder contribuir para o meio ambiente, principalmente com os oceanos”, conclui.
Quem é a família Schurmann?
A Família Schurmann é o primeiro grupo brasileiro a circum-navegar o globo a bordo de um veleiro, trajetória iniciada em 1984 e que acumula mais de quatro décadas de experiência marítima. Atualmente, a tripulação composta por Vilfredo, Heloísa, Wilhelm e Erica, coordena a iniciativa Voz dos Oceanos.
Lançado em agosto de 2021 com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o projeto é um movimento global dedicado a documentar e combater a poluição plástica nos mares.
A missão une pesquisa científica, educação ambiental e a busca por soluções industriais e tecnológicas para reduzir o impacto dos resíduos nos ecossistemas marinhos. O objetivo da expedição é sensibilizar governos, indústrias e consumidores sobre a urgência de substituir plásticos de uso único por alternativas recicláveis ou reutilizáveis.

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