‘Eu Sou um Hamlet’ relê o personagem de Shakespeare com protagonista negro

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‘Eu Sou um Hamlet’ relê o personagem de Shakespeare com protagonista negro


Sob a escuridão do palco, um homem reivindica a atenção do público. Divide o espaço com nada além de uma cadeira e um amontoado de refletores. Sua reputação o precede e pouco é necessário para assegurar o pacto com o espectador. Estamos na presença de uma figura nobre e preservada por séculos de dramaturgia. Um jovem príncipe que decide confiar suas angústias aos reles mortais. Mas dessa vez sua pele é negra e o manto real resgata religiões de matriz africana.

“Eu Sou um Hamlet” adiciona outra perspectiva às reflexões de William Shakespeare ao propor uma reparação histórica. A peça recupera o trabalho do dramaturgo inglês pela performance de Rodrigo França, que autoriza o personagem do século 17 a representar corpos historicamente excluídos.

“Hamlet é o primeiro personagem que abre um discurso para quem o escuta. A leitura traz a sensação de que o personagem olha diretamente para os seus olhos. Aqui ele surge pela história do próprio Rodrigo, enquanto alguém presente na militância mas que também lida com o racismo”, diz Fernando Philbert, diretor do monólogo em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

Apesar da ação estar restrita ao palco, tudo ambiciona o diálogo com a plateia. O texto original, que acompanha Hamlet em uma jornada de vingança após o assassinato do pai, se mistura à trilha sonora composta por “voice offs” e idealizada pela artista Dani Nega.

Os questionamentos de França são intercalados por noticiários, protestos e outras manifestações culturais. Essas ferramentas traduzem os dilemas da obra para a atualidade e elencam uma série de grupos marginalizados, perseguidos por questões raciais, sociais ou de gênero.

Para o ator, é uma forma de priorizar um teatro de ponte entre os autores e aqueles que assistem. Ele entende que Shakespeare sempre estendeu suas discussões a uma esfera popular, mas o tempo teria restringido seu legado à elite.

“Quando você pega Hamlet, que discute a existência e a humanidade, e o transforma em personagem negro, é uma forma de traduzir outra subjetividade. O que essa busca por vingança diz sobre a existência de uma estrutura de poder? Isso é muito contemporâneo se pensarmos na população negra, em homens e pais negros que desaparecem e são mortos pelo Estado”, afirma ele.

A pilha de equipamentos sobre o palco se converte em cemitério na interação com França. O intérprete investiga os refletores, um a um, como caveiras do passado. Aos espectros são acrescentadas vozes como a do ativista Martin Luther King e da socióloga Marielle Franco.

“A trilha é o outro personagem com quem Rodrigo interage. Não estamos falando sobre fantasmas, mas sobre ancestrais. Ancestrais que voltam querendo justiça, cobrando esse ser presente que honre suas raízes. É como se a peça o questionasse: eles teriam orgulho ou vergonha de você?”, diz Philbert.

Para além da dramaturgia sonora, simbologias do candomblé e da umbanda são destacadas pelo figurino em branco vibrante e pela iluminação de Pedro Carneiro, que invade a encenação com luzes coloridas. Cada uma representa um orixá em específico, conjunto elencado por uma pesquisa de dois anos feita pela dupla e outros colaboradores.

Sociólogo e filósofo para além da atuação, França conta que os ensaios exigiram uma pausa nas outras áreas profissionais. Foram meses de reflexão sobre como a obra poderia se tornar mais abrangente ao representar o Brasil.

Philbert defende a importância de projetos teatrais em uma época em que se torna cada vez mais difícil confiar em imagens produzidas online.

“O teatro é a arte do encontro. Hamlet foi o personagem que encontramos ao abrir essa porta. Ele permite um espetáculo em que convidamos o espectador a enfrentar o mundo com um punhal. ‘Enfrentar o mundo pelo suicídio’, como no original, foi uma das poucas coisas que alteramos. Não podemos abrir mão da vida”, afirma ele.



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