Dificuldades de abastecimento de comida e remédios se alastram na região, enquanto o bloqueio ao petróleo vira arma de revide para o Irã
JC
Publicado em 18/03/2026 às 0:00
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O tempo da guerra se dilata, as vozes dos líderes perdem sentido e a chuva de mísseis passa a ser comum nos céus de todo dia no Oriente Médio. Mesmo nações do lado de fora do conflito sentem as consequências da nova rotina. No Kuwait, por exemplo, como a CNN mostrou em reportagem para o mundo inteiro, caminhões repletos de medicamentos e comida precisam encontrar novas rotas para chegar ao país, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, em represália aos ataques iniciados por Israel e pelos Estados Unidos, que mataram o líder supremo e prometem derrubar o regime – sem esclarecer o que desejam colocar no lugar. O próprio Donald Trump afirmou que não possui a intenção de fazer do Irã uma democracia – talvez um governo totalitário que colabore com os EUA seja o modelo de sua preferência.
O bloqueio aos navios petroleiros e outras embarcações em Ormuz é simbólica da força remanescente dos iranianos perante o devastador poder bélico combinado sob as ordens de Netanyahu e Trump. Mas se o estreito geográfico é palco de resistência, também pode ser visto como o lugar para onde flui a estreiteza humana que se desdobra em violência política, deboche humanitário e repetitiva insensatez. As bombas calaram o diálogo para cometer um assassinato, e deram início a uma guerra matando meninas adolescentes que estavam numa escola confundida com um prédio militar. De lá para cá, a desumanidade só se alarga. O fechamento de Ormuz é apenas parte da obliteração do diálogo – para usar uma palavra do gosto de Trump, que diz a toda hora obliterar o inimigo que ele mesmo declara inimigo. Sem conversa não há horizonte para a paz, nem para nada a não ser mais traços de fogo e discórdia, ruínas e mortes cruzando céu e desabando sobre as vidas restantes no solo.
A facilidade para espalhar minas explosivas nas águas do Estreito faz com que milhares de navios continuem parados, à espera de um fim cada vez mais distante para o conflito. A confirmação de tal estratégia pode paralisar o tráfego de embarcações por ali durante meses, até que as minas sejam identificadas e retiradas. Os prejuízos para a indústria de petróleo seriam inestimáveis. E para as populações que dependem de outros suprimentos fundamentais por aquele corredor, outras rotas precisam ser criadas, provavelmente mais custosas e demoradas, atingindo a qualidade de vida, como no Kuwait. Aliás, o Kuwait enfrentou por um ano e meio a permanência de minas em seu território, na Guerra do Golfo.
A recusa dos europeus à convocação de Donald Trump, para ajudarem a desbloquear Ormuz, não deixa de ser um sinal de prudência diante da escalada do desatino na região. E também de limitação do poder de Israel e dos EUA, apesar da linguagem grandiloquente de um supremacismo onipotente. Estreitado, o poder de guerra, quem sabe, perca o fascínio para quem acha que pode tudo.
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