Em uma das cadeiras do auditório do Sesc Pinheiros, a escritora Andrea del Fuego viveu a experiência de ver uma de suas criações ganhar corpo, voz e gestos. Ela assistiu, na segunda semana de março, as primeiras apresentações da peça “A Pediatra”, uma adaptação do livro de mesmo nome, obra que fascina os leitores desde 2021, quando foi lançada.
Cecília, a pediatra ácida que não gosta de crianças, é vivida por Debora Lamm no espetáculo dirigido por Inez Viana. Divide o palco com Luís Antônio Fortes, o intérprete de outros personagens da trama, entre eles Celso, o amante, um homem de comportamento padrão, à beira do clichê.
“Eu vi a minha intenção de escrita encenada de uma forma que talvez nem esteja tão legível no livro”, disse a autora. “É muito bonito um texto que sai de uma virtualidade da criação e chega nesse aterramento do palco.”
A reportagem da Folha estava ao lado da escritora no ensaio final e testemunhou as risadas diante do sarcasmo de sua própria criatura. O humor de Lamm acentua o ar debochado da pediatra, uma mulher sem paciência para as dinâmicas e os dramas familiares que acompanha no consultório.
Na história, a protagonista é surpreendida pela afeição materna que começa a sentir por um menino de dois anos, filho de seu amante e cujo parto acompanhou como neonatologista. Celso, o homem casado que ela deseja e, ao mesmo tempo, despreza, é uma ponte para esse mergulho visceral enlouquecido.
A direção optou por um cenário despojado, sonoplastia sutil e uma montagem que cria cumplicidade com o público. A primeira adaptação teatral de “A Pediatra” fica em cartaz até 18 de abril no Sesc Pinheiros, com ingressos esgotados.
Para del Fuego, a diretora consegue desenhar a crueldade do desejo humano, e a protagonista “pilota todos os polos” com a mesma intensidade.
“É uma personagem que salta do papel”, analisa Lamm. “Tem personagens que são ricos, dá vontade de emprestar uma loucura, uma humanidade, uma contradição.”
O humor irônico da interpretação, na visão da atriz, cria uma ar de despretensão à peça, relaxa e aproxima o público. “Isso foi uma coisa que a comédia me ensinou muito bem.”
No caso de Fortes, o desafio foi dar voz aos outros personagens sem adotar recursos como mudanças de tom ou de figurino. “Não é o Luís Antônio, mas sim o próprio Celso que faz os outros personagens dessa história”, explica.
Por coincidência, “A Pediatra” estreou no mesmo dia da série “Juntas e Separadas”, do Globoplay, sobre maturidade e recomeços femininos, com Lamm como uma das protagonistas. A trama, criada por Thalita Rebouças, acompanha mulheres com mais de 40 anos em um período de transformações, protagonismo e companheirismo.
Essa lupa sobre a intimidade das mulheres interessa à atriz, com a arte como um caminho para tentar compreender o mundo contemporâneo. Segundo ela, caso o momento não fosse propício para isso, “cutucaria” para trazer as discussões à tona.
Quando escreveu “A Pediatra”, Andrea del Fuego não tinha certeza sequer sobre a publicação do livro por uma editora. “Eu me coloco em uma posição movediça. Pode, como não pode”, afirma a respeito da aceitação de sua literatura. Logo após o lançamento, no entanto, a trama começou a ser disputada por produtoras de cinema e grupos de teatro.
“Até hoje recebo mensagens de atrizes, das mais conhecidas até as da arte underground, procurando saber sobre a possibilidade de fazer a Cecília. É um livro que tem esse potencial de desdobramento e de levar a narrativa para outros suportes”.
O romance terá uma adaptação para o cinema produzida pela Anonymous Content, em data ainda não divulgada.
A personagem amoral e a possibilidade de encontrar profissionais como a Cecília em cada esquina impressionaram a diretora da adaptação teatral.
Ao mesmo tempo, ela pensou no privilégio de ter a possibilidade de escolher uma profissão de forma apaixonada, como é o seu caso. A pediatra, ao contrário, é uma mulher seduzida pelo fato de ter o pai bem-sucedido na mesma profissão e, além disso, proprietário de um andar inteiro de um prédio para as clínicas da família.
“Levada a última consequência, essa escolha pode determinar o caráter de uma pessoa ou fazê-la cometer um crime. Quis mostrar isso num palco para que as pessoas se questionem sobre seus caminhos e suas escolhas”, completa Viana.
No primeiro ato da peça de uma hora, há a negação da maternidade. No segundo, a impossibilidade de negar algo nunca desejado, como acontece no thriller de del Fuego, em uma abordagem corajosa e sem pudores sobre um tema para lá de delicado —ser ou não ser mãe?
Diretora também de “Mulher em Fuga”, baseada em livros do francês Édouard Louis, a diretora já adaptou outra obras literárias para os palcos, na Cia OmondÉ: “Nem meso todo o oceano”, de Alcione Araújo, e “A Mentira”, de Nelson Rodrigues.
“Mulher em Fuga” é um trabalho para o qual foi convidada e, por coincidência, também aborda questões familiares complexas e tem uma mãe no centro do enredo, na literatura de autoficção praticada pelo autor. No caso de “A Pediatra”, Viana foi atrás dos direitos da obra para encená-la.
“Acho sempre bem-vinda essa conversa entre romance e dramaturgia”, diz.


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2616619803.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)








/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/horoscopo-do-dia-previsao.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2616619803.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)


