Livro de Altemar Ponte: “1975: Recife afundou em silêncio” contribui para produzir memória e refletir sobre a maior tragédia urbana do Recife
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Cinquenta anos depois da tragédia que deixou o Recife submerso, o escritor e empresário de tecnologia, Altemar Pontes lançou, no último dia 17, o romance 1975: Recife afundou em silêncio. Ele optou por ficcionar uma história que, de tão improvável, a realidade supera a imaginação. A obra reacende não só o trauma da enchente histórica, como também o poder devastador de um boato: o falso rompimento da barragem de Tapacurá, que provocou terror na cidade no auge do desastre.
“Faltam registros sobre a enchente de 75. Todo mundo tem algo a contar, mas pouca coisa foi escrita. A memória ficou muito no plano do trauma, não da documentação. A gente fala muito de tragédias de fora, mas essa aqui foi nossa, e foi enorme”, diz o autor.
O romance da tragédia
Construído em 32 capítulos, o livro acompanha uma família matriarcal que vive à beira do Capibaribe, no bairro de Afogados — um dos mais atingidos. Cada capítulo traz o ponto de vista de um dos filhos, com narradores que transitam entre o jornalista, o motorista de ônibus, o enfermeiro, o professor e um cadeirante. A mãe, lavadeira, representa o cotidiano feminino da época, em que mulheres sustentavam sozinhas suas casas com trabalho braçal.
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“Quis representar simbolicamente a sociedade da época. A cheia virou pano de fundo de uma história familiar, mas tudo o que está ali — datas, lugares, eventos — tem base factual. Pesquisei muito. Qualquer erro histórico comprometeria a narrativa”, explica Altemar, que passou dois anos escrevendo a obra.
Apesar de ser ficção, o livro é atravessado por fatos reais, como a inundação do Hospital Barão de Lucena, os enterros improvisados por conta de cemitérios alagados e o impacto da tragédia em bairros inteiros. Segundo dados da época, 107 pessoas morreram, e cerca de 80% da cidade foi afetada: um terço da população ficou desabrigado, outro terço teve a casa tornada inabitável, e apenas um terço conseguiu permanecer em sua moradia.
O boato que virou caos

Livro é ilustrado com desenhos em carvão produzidos pelo próprio autor, que recriam o ambiente sombrio e alagado da cidade submersa, como esta do Barão de Lucena – Divulgação
A escolha de iniciar o romance no dia 9 de julho tem objetivo claro: criar tensão. Ao longo da narrativa, a cidade vai sendo tomada por chuvas intensas, até que, no dia 21 de julho, às 10h da manhã, surge o boato: “Tapacurá estourou”. A notícia falsa, anunciada pelo rádio — o principal meio de comunicação da época — provocou uma onda de desespero generalizado. Pessoas abandonaram suas casas, correram pelas ruas, e o pânico se espalhou sem controle.
“Essa história começou quando eu ouvi uma discussão sobre fake news. E me veio à mente Tapacurá. Todo mundo saiu correndo, largou tudo. Eu ficava pensando: o que faz alguém correr assim, sem pensar? O boato foi mais forte que qualquer explicação. E isso me marcou”, conta o autor.
Vozes que pedem para ser ouvidas

Romance mescla memória e ficção para revisitar a enchente que paralisou o Recife em 1975 – Divulgação
Durante a sessão de autógrafos, uma senhora cadeirante se aproximou do autor para dizer que sobreviveu graças à mãe, que a protegeu durante a enchente. Outra se queixou de não ter sido “entrevistada”: queria que sua história fosse contada. Para Altemar, esse encontro revelou algo poderoso — o desejo coletivo de narrar o que foi vivido, ainda que 50 anos depois.
“As pessoas querem ser ouvidas. Sentem que a tragédia que viveram foi esquecida. Isso me tocou. Todo mundo tem uma lembrança vívida da cheia. E, mesmo assim, o silêncio permanece.”
Silêncio da história
A imagem de Recife “afundando em silêncio” não é apenas literária. Para o autor, ela representa o colapso das promessas do poder público — como a de que a construção da barragem de Tapacurá, entregue em 1973, colocaria fim às enchentes.
“Em 1975, dois anos depois da entrega da barragem, tivemos a maior cheia da história recente. E o que ficou foi o silêncio. Ninguém explicou. Ninguém documentou. Por isso, o título.”
Além do texto, o livro traz ilustrações feitas pelo próprio autor. Usando carvão, ele criou imagens que evocam o ambiente úmido, escuro e denso dos dias de cheia. A capa, com uma geladeira boiando, remete à sensação de abandono e perda.
O romance pode ter sido a porta de entrada para algo maior. No futuro, Altemar admite que pensa em fazer um projeto documental. Há muitas formas de contar a hitória da tragédia. “Eu, por exemplo, queria escrever um romance, mas descobri que estava escrevendo um testemunho coletivo”, conclui.

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