É difícil pensar em soberania criativa trabalhando para sobreviver, diz Karine Teles

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É difícil pensar em soberania criativa trabalhando para sobreviver, diz Karine Teles


Quando “Riscado” foi exibido, em 2011, na Mostra de Cinema de Tiradentes, Karine Teles não pôde ver, na cidade mineira, a repercussão do longa que a lançou de forma definitiva às telonas, poucos meses após ter sido premiada no Festival do Rio. Tinha acabado de dar à luz aos gêmeos Arthur e Francisco, do relacionamento com o diretor Gustavo Pizzi.

“Desde pequena eu tinha o desejo de ser mãe. A maternidade não é uma coisa compulsória, eu acho que as pessoas têm que ter o direito de escolher de viver isso, e eu tive esse privilégio. Os meninos chegaram, por uma coincidência do destino, no mesmo momento em que minha carreira no cinema começou”, diz a atriz à reportagem.

Agora, 15 anos depois, acompanhada do roteirista Camilo Pellegrini e dos dois filhos adolescentes, ela subiu ao palco da tenda onde ocorre o festival como a homenageada do ano. Rostinhos que os cinéfilos já conheciam de “Benzinho”, de 2018, quando os meninos contracenaram com a mãe.

“Hoje, eles participam no limite do desejo deles”, diz a artista, que não raro tem a maternidade como parte dos seus trabalhos. Além de “Benzinho”, foi o caso da patroa de “Que Horas Ela Volta?, de 2015, uma espécie de semente da motoqueira sudestina e supremacista branca de “Bacurau”, de 2019. “Meus filhos acompanham o meu dia a dia, sabem como é, conhecem os perrengues.”

A dificuldade de viver da arte, aliás, já era tema de “Riscado”, roteirizado por ela, e foi um dos aspectos que a atriz destacou em seu discurso de agradecimento na noite de sexta-feira (23). Afinal, pouco mais de três meses do fim do remake “Vale Tudo”, que garantiu a ela alguma estabilidade financeira pelo trabalho como a secretária monocromática Aldeíde, ela agora continua tentando financiar o projeto “Princesa”.

Este deve ser seu primeiro longa-metragem como diretora, após assinar dois curtas de abordagem mais experimental, “Romance” e “Otimismo”, ambos disponíveis no site da mostra. “Estou há cinco anos tentando [aprovação em editais], e tivemos um momento de apagão recente“, diz, se referindo ao desmonte durante o governo do presidente Jair Bolsonaro.

“Lembro quando eu fui à França [para exibir ‘Riscado’] e descobri que existia um apoio governamental para os artistas nessa intermitência, o período em que se termina um trabalho e até começar outro. Aqui a gente não tem nenhuma segurança, você vive nessa angústia toda vez que termina um trabalho”, diz a atriz de 47 anos, reconhecendo que só conseguiu equilibrar seu ofício e os boletos na última década.

Esse aperto é um assunto que se estende a outras mesas desta edição da mostra, discutindo os rumos das políticas públicas direcionadas ao cinema, num período em que reconhecimentos do Oscar e do Globo de Ouro, por exemplo, reafirmam o interesse global pela produção brasileira. “Vi ‘O Agente Secreto‘ duas vezes, e veria mais cinco. Eu moraria nesse filme”, afirma, citando a produção de Kleber Mendonça Filho que concorre a quatro troféus da Academia.

“A gente precisa ter força e ter fôlego para discutir, conversar e correr atrás de coisas importantes para a nossa indústria, e para isso é fundamental que a gente viva numa democracia”, diz Teles.

Ao contrário do que pode pensar o espectador que a conhece como a burguesa de “Que Horas Ela Volta?”, Teles nasceu em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, numa família de classe média baixa, e passou por diferentes empregos antes de se consolidar como atriz, primeiro no teatro —uma vocação que exerce desde os 14 anos.

Depois do filme com Anna Muylaert, Teles disse, em conversa com jornalistas, ter sido convidada para outras “três ou quatro donas Bárbaras”. Recusou todas, preferindo trabalhos com os quais pudesse se identificar.

Afinal, em paralelo, ela se aproximava tanto do cinema nordestino —no contato com Mendonça Filho para “Bacurau”, que a levou ao Festival de Cannes— e, até mais fortemente, das obras da produtora Filmes de Plástico, nascida em Contagem.

A partir do contato com os mineiros, num festival em Hollywood, em 2011, estrelou curtas e longas como “Quinze”, “Nada” e “No Coração do Mundo”. E foi no núcleo criativo da produtora, a partir de um edital hoje extinto, em 2016, que começou a trabalhar “Princesa”, que promete elementos de suspense e terror ao retratar o machismo como um vírus. O longa também é da carioca Bubbles Project e tem um coprodutor francês.

Após uma experiência ruim na novela “Malhação”, da Globo, ainda aos 19 anos, quando viveu uma usuária de drogas, voltou para a atração em 2019 —justo na temporada que foi encerrada às pressas com o estouro da pandemia de Covid. Após o período, voltaria à emissora ainda nos remakes de “Pantanal” e “Elas por Elas”, reforçando que nunca teve um contrato fixo.

“Ninguém é funcionário mais, nós [artistas] não temos carteira assinada”, diz. “A gente está falando de soberania criativa como tema aqui de Tiradentes, mas como é que você pode ter soberania se tem ainda de correr atrás da sobrevivência?”

Mas enquanto não consegue dar à luz o seu longa nem confirma a volta aos palcos —sua última peça é de 2019, mas tem dois projetos no horizonte—, diz que vai aproveitar o festival até o fim, no próximo sábado (31), conforme a chuva permitir.

Entre uma entrevista e outra, já levou os filhos para participar de oficinas. E, ela diz, se quiserem seguir a profissão da mãe, que assim seja —mesmo com todos os perrengues.

O jornalista viajou a convite da Universo Produção



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