Entre a população massacrada e um regime totalitário acuado, cogitada intervenção dos EUA pode parecer salvação e se consumar como gatilho
JC
Publicado em 14/01/2026 às 0:00
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No dilema a que podem sucumbir os regimes totalitários, a exibição intensa de força equivale a uma demonstração de fraqueza. Quanto maior a repressão necessária, menor é o controle do regime sobre a população. Essa é a vulnerabilidade exposta pelo aiatolá Ali Khamenei, ao deixar a nação durante vários dias sem comunicação entre si e com o mundo, e matar milhares de manifestantes, cujos cadáveres enfileirados nas ruas comprova a gravidade da situação.
O Irã atravessa um momento dificílimo, de medo, sofrimento e incerteza, com potencial para se disseminar nos países vizinhos. A denúncia de matança dos cidadãos após os protestos elevou o tom de alerta da parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que nas últimas horas avisou aos norte-americanos para saírem do Irã, e tem repetido declarações como se estivesse preparando medidas duras contra a ditadura de Ali Khamenei. Um ataque direto contra o líder iraniano é considerado cada vez mais próximo, na medida em que os conflitos internos e a morte dos manifestantes se ampliam.
Os protestos ganharam apoio explícito e incentivo da Casa Branca, sobretudo após o blackout da internet e o aumento da violência pelo Estado autoritário de Khamenei. As informações que chegam desenham uma guerra civil onde o povo não tem chances contra a repressão armada. Um cenário ideal para o retorno de uma intervenção estadunidense, que promete a salvação, mas, em se tratando de Oriente Médio, e de um aliado histórico da Rússia e da China, pode se transformar num gatilho de crise maior. O silêncio de russos e chineses seria a senha para que Trump siga com seus planos no Irã?
E a pergunta em relação à Venezuela vale ainda mais para o território iraniano, caso um ataque para derrubar o aiatolá se realize: como o governo dos EUA pretende estabilizar a crise gerada por sua intervenção? Com uma história recheada de instabilidades, o Irã parece ainda mais complexo do que a Venezuela, no ensaio neoimperialista de Trump. A economia fragilizada que leva as pessoas às ruas não será tão facilmente ajustada, e a tutela de um país onde política e religião se misturam, não deve estar nos planos, caso haja algum plano, do atual presidente dos EUA. “Ajuda está a caminho”, afirma Trump em sua rede social, estimulando os iranianos e a continuarem enfrentando a repressão do aiatolá.
Enquanto os governos europeus se limitam a convocar diplomatas do Irã para explicações diante do descalabro, o comportamento de Trump segue a linha cada vez mais tênue entre uma liderança legitimada pelas urnas em seu pais e um tirano que não se incomoda de agir à revelia das leis nacionais e internacionais. Demonstrações de força dentro dos EUA acendem a desconfiança dos norte-americanos a respeito de seu presidente, deixando as eleições para o Capitólio, este ano, surgindo como fronteira institucional de interesse do mundo inteiro. Até lá, o ocupante da Casa Branca parece decidido a se assumir presidente do planeta.






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