Assunto delicado e atual, a depressão na adolescência é o tema da peça “O Filho”, do dramaturgo francês Florian Zeller, que acaba de ganhar uma versão brasileira com os atores Maria Ribeiro e Gabriel Braga Nunes no elenco.
A questão, que assusta mães e pais, inquieta também o elenco e a direção, conduzida por Léo Stefanini. Como lidar com essa realidade dolorosa e complexa?
No teatro, Stefanini optou por uma montagem enxuta, sem sobras. “Essa peça, justamente pela delicadeza que possui, pelo realismo que buscamos, pela poesia, exige precisão em todos os setores”, diz.
Não há pirotecnia em cena e o público é capturado pelo impacto da história. A montagem tem cenário com poucos elementos, luz e trilha sonora que sinalizam o desenvolvimento da narrativa e atuação em close dos atores —além de Maria Ribeiro e Braga Nunes, o elenco é formado por Thais Lago, Andreas Trotta, Marco Marinello e Carlos Meceni.
A série “Adolescência”, da Netflix, inspirou a escolha do texto. A partir disso, os artistas fizeram pesquisas que abrangem temas como a hiperconectividade e as dificuldades dos adolescentes em lidar com a superexposição do mundo atual.
O livro “A Geração Ansiosa”, de Jonathan Haidt, uma das fontes de estudos, mostra que as taxas de depressão e de outros transtornos mentais crescem desde que a infância baseada no brincar entrou em declínio e foi trocada pelo celular.
Entre as consequências dessa mudança, de acordo com a obra, estão a privação social, a má qualidade do sono e a fragmentação da atenção.
No espetáculo, Nicolas, papel de Andreas Trotta, um adolescente de 16 anos, se sente deslocado e sem motivação enquanto lida com a separação dos pais, perplexos diante da tristeza do jovem e incapazes de tomar atitudes que possam, de fato, ajudar o garoto.
Ele sai da casa da mãe, papel de Maria Ribeiro, para morar com o pai, vivido por Gabriel Braga Nunes, e com a madrasta, papel de Thais Lago, além de um irmão ainda bebê. Sem vontade de ir à escola e sempre com um celular na mão, enfrenta dificuldades para reencontrar o sentido da vida.
“O tema é muito tocante nesse momento”, diz Braga Nunes, pai de uma pré-adolescente de 11 anos. “Faz sentido falarmos sobre isso agora”. Amigos, companheiros de trabalho, vizinhos, quase todo mundo conhece uma história parecida com a de Nicolas. “É um assunto de todos nós. A gente sente que está fazendo um trabalho relevante e isso dá um prazer enorme”, completa o ator.
Maria Ribeiro, artista que escreve, dirige e apresenta programas, refez os planos para a reta final deste ano para conseguir participar da peça. “Estava em pé quando comecei a ler o texto e em pé fiquei”, diz.
Ela sempre teve o desejo de falar sobre saúde mental num espetáculo e é conhecida por recomendar auxílio profissional para as pessoas com quem convive. “Faço bullying com todo mundo, porque acho que muita gente tem preconceito com remédio, com terapia”, justifica.
Há três anos sem fazer teatro, desde a montagem de “Pós-F”, de Fernanda Young, a atriz retorna ao palco num papel que tem relação com a vida real. “Eu sou mãe de adolescente e sou uma mãe separada. Então, de fato, tenho propriedade, conheço o que a personagem sente.”
Ribeiro não gosta de quem critica a adolescência e diz aprender muito com os filhos de 22 e 15 anos. Em “O Filho”, se aproximou de forma maternal do jovem ator Andreas Trotta, de 22 anos.
Experiente em musicais, Trotta foi escolhido em uma seleção que reuniu mais de 80 atores e tem como uma das inspirações as lembranças de momentos difíceis que já atravessou. “Cresci em uma bolha da elite branca, heteronormativa, onde eu me sentia um pouco sozinho, deslocado”, descreve o ator.
Além disso, ele usou outras obras como referência, entre elas os filmes “Querido Menino”, sobre a luta de um pai contra a dependência química do filho, e “A Vantagem de ser Invisível”, que aborda a depressão e a ansiedade na adolescência.
A peça é o segundo trabalho de Florian Zeller dirigido por Léo Stefanini. O primeiro foi “O Pai”, espetáculo visto por 120 mil espectadores e vencedor do Prêmio Shell de melhor ator para Fúlvio Stefanini. Também desenvolvido no contexto dos conflitos e dos afetos familiares, “O Pai” mostra um homem com uma memória que passa por oscilações e tem um enredo que contrasta realidade e ficção.
Em “O Filho” também há laços de ternura e dificuldades de relacionamento, além de questionamentos sobre a estrutura machista que ainda domina o funcionamento das famílias. Na trama, a voz mais lúcida é a da madrasta, uma mulher que tenta construir uma família e, ao mesmo tempo, precisa lidar com a saúde mental do enteado e do próprio marido.
“Fica entre a culpa e a vontade de acolhimento, além do medo de perder espaço nessa nova família”, diz a atriz Thais Lago. “Ela é a única pessoa que consegue olhar e falar ‘esse menino está precisando de ajuda’.”
Sofia, a madrasta, também precisa de apoio e enfrenta a solidão ao carregar quase todas as responsabilidades em relação ao filho pequeno. A ausência dela, num momento decisivo da história, demonstra o quanto é grave a falta de um olhar consciente durante uma crise familiar.

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