Sem a intenção de restaurar o processo democrático, intervenção dos EUA na Venezuela traz à tona o risco de um mundo guiado pelo autoritarismo
JC
Publicado em 06/01/2026 às 0:00
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Poucos dias após a operação militar que chocou o mundo e ainda preenche de medo as populações de países da América Latina, a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, sob as ordens do presidente Donald Trump, vai se estabelecendo cada vez mais como uma medida para favorecer os negócios, em escala bilionária, de empresas do setor petrolífero. À diferença de outras intervenções dos norte-americanos, a motivação de libertação do povo dominado por um ditador e a restauração, ainda que gradual, do processo democrático, nem sequer chegou a ser colocada por Trump e seus assessores. Desse modo, num mundo contemporâneo com duas superpotências em que a democracia não rege o cotidiano – na Rússia e na China – o desprezo dos EUA pelo sistema democrático, dentro de seu país e, evidentemente, do lado de fora, lança graves preocupações sobre a geopolítica totalitária que pode estar vindo por aí.
A posse da vice-presidente de Maduro, Delcy Rodriguez, com o apoio dos militares e das instituições tomadas pelo chavismo, promete estabilidade ao cenário de insegurança compartilhado por venezuelanos no país e no exterior, que fugiram da pobreza e da repressão do regime e chegaram a comemorar a destituição do tirano, imaginar voltar em breve para a terra natal. Na reunião de emergência do Conselho da Organização das Nações Unidas, o representante dos EUA afirmou que não há guerra, nem ocupação na Venezuela. Apesar disso, as ameaças prosseguem, de Trump e de seu governo, exigindo cooperação imediata e obediência colonial do novo governo empossado oficialmente.
A lembrança de que a democracia foi mais arruinada do que a indústria do petróleo na Venezuela, precisa retomar o lugar que merece. O esquecimento do assunto por Trump é sintomático de seu desapreço pelas instituições, algo que os estadunidenses já sabem. Mas ao invés de ver a prisão do ditador pela ótica do aspirante a imperador que o levou, outros líderes no planeta devem buscar apontar a importância do cerne da questão. O que está em jogo na Venezuela, espalhando-se pela América – da Casa Branca à Casa Rosada – com pontos de apoio na Europa, é o enfrentamento da perspectiva totalitária que anula o valor da liberdade individual e dos direitos coletivos. Atira no lixo a soberania das nações e os princípios de interação global que foram amadurecidos durante séculos, em privilégio de interesses restritos mais afeitos à ganância e à violência do poder pelo poder.
A transição para a democracia na Venezuela é uma agenda que não pode ser postergada. Nem pelos venezuelanos, nem pelo mundo, que não deve depender de qualquer país agindo por conta própria para tratar de temas urgentes. Se os EUA estão momentaneamente distantes da pauta do aperfeiçoamento democrático e do multilateralismo, é agora mesmo que a democracia e a cooperação global emergem, inadiáveis, antes que seja tarde mais uma vez.

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