Da dor à memória, Jardim Monte Verde ressignifica tragédia de 2022 com megamural que pode entrar no Guinness

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Da dor à memória, Jardim Monte Verde ressignifica tragédia de 2022 com megamural que pode entrar no Guinness


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No bairro onde muitas pessoas ainda têm dificuldade de dormir quando chove, a vista ao acordar vai ganhar novos sentidos. Ressignificando a tragédia com arte, Jardim Monte Verde vai abrigar um megamural de grafite que pode se tornar o maior do mundo e entrar para o Guinness Book.

O abandono das encostas onde 44 pessoas morreram soterradas em 2022 deve dar lugar à memória. Nas cores e nos traços, os artistas vão contar a história da comunidade, homenagear as famílias que perderam os seus entes por falta de infraestrutura do poder público e abrir espaço para novas perspectivas.

O projeto é do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação. A grafitagem será feita em três encostas em Jaboatão dos Guararapes, totalizando mais de 40 mil metros quadrados de intervenção artística.

“Convidamos os artistas para presentear a comunidade com arte. A ideia é que a gente possa romper esse ciclo da tragédia, mas também que com a arte a gente possa gerar outra lembrança. Que a obra traga segurança para o território, mas que seja lugar de memória e afeto”, destaca Pedro Ribeiro, secretário executivo de Periferias de Pernambuco.

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Mila Barros é uma das grafiteiras que trabalha no projeto de Jardim Monte Verde – Junior Souza/JC Imagem

Assinado por seis grafiteiros pernambucanos, o projeto traz de volta à comunidade de Jardim Monte Verde elementos que ficaram apagados com a tragédia de 2022.

O trabalho é realizado por Adelson Boris, Mila Barros, Fany Lima, Galo de Souza, Glauber (Arbos) e Marquinhos ATG.

Duas características se encontram em todas as artes: nuvens brancas e pipas. “O primeiro representa a proximidade do céu por conta da altitude elevada de Jardim Monte Verde, enquanto o outro significa as brincadeiras ao ar livre das crianças da comunidade”, explica Pedro Ribeiro.

Para a artista visual e grafiteira Mila Barros, de 34 anos, o projeto é “desafiador pela história da comunidade”. “Saber que vamos ressignificar um lugar que foi atingido tragicamente tem um peso e ao mesmo tempo é muito feliz pensar que a arte vai estar ressignificando um lugar assim”, diz.

Além de pipas e estrelas, a arte de Mila carrega um significado de todas as comunidades do país: a presença feminina.

“As mulheres são grandes entidades periféricas que organizam e mobilizam tudo, então trouxe na arte uma mulher bem grande como uma entidade feminina para proteger esse lugar. Eu acredito que as mulheres são o grande alicerce familiar das periferias”, destaca.

As mulheres são o grande alicerce familiar das periferias

Mila Barros, grafiteira

Rapel e técnicas de salvamento

Junior Souza/JC Imagem
Equipes utilizam equipamentos de alpinismo para trabalho nas encostas – Junior Souza/JC Imagem

Outro desafio apontado pelos artistas no trabalho das encostas é a altura e o tamanho das obras. As equipes utilizam técnicas de segurança, como o rapel, e equipamentos de alpinismo para dar cor aos grafites.

Já a artista Fany Lima tem na equipe de seis pessoas um alpinista com formação em resgate. “É um trabalho que exige não só criação artística, mas também a garantia de que estamos seguros enquanto pintamos as encostas”, afirma.

Há ao todo 35 integrantes nos seis grupos de pintura. Uma delas é Pene, artista visual e grafiteira, de 26 anos, que está na equipe de Mila Barros. Apesar de atuar no grafite há uma década, ela conta que nunca tinha trabalhado em morros.

“Está sendo muito importante para mim estar nessa equipe, somando na construção do desenho, todos os dias se desafiando. Esse trabalho tem tido um nível de complexidade imenso, mas está sendo bem satisfatório e está dando muito orgulho para a gente”, explica.

Junior Souza/JC Imagem
A artista visual Pene integra a equipe de Mila Barros durante artes em Monte Verde – Junior Souza/JC Imagem

Além dos equipamentos de rapel, equipes como a de Mila usaram instrumentos como o rádio para comunicação durante o esboço do trabalho. “A gente fez sem projeção. Uma pessoa ficou lá embaixo [da barreira] no rádio falando se estava certo e a gente foi batendo a proporção”, conta a artista.

Urbanização

O projeto de grafite faz parte de um conjunto de obras de urbanização do Governo do Estado que vai beneficiar as comunidades de Alto Dois Carneiros e Jardim Monte Verde.

Além das obras nas encostas, foram realizadas intervenções como a drenagem e captação das águas da chuva e melhorias habitacionais pelo Reforma no Lar, somando cerca de R$ 56 milhões de investimento.

Segundo Pedro Ribeiro, novas demandas surgiram durante as obras e em diálogo com a população.

“No processo de construção da obra, as crianças ocuparam os espaços e a gente entendeu que elas estavam nos dando um recado: que não tinham espaço de lazer na comunidade. Por isso, estamos construindo um espaço para a primeira infância”, conta.

Além de área para as crianças, o Governo de Pernambuco prevê a instalação de equipamentos urbanos de lazer, espaços para pessoas idosas, pista de cooper, área de convivência, campinhos e espaços abertos para a ocupação da comunidade, além de um memorial em homenagem às pessoas que perderam a vida nas tragédias das chuvas.

Mitigação do calor

A escolha do mural e das cores que vão compor a arte passaram por uma análise técnica de urbanistas.

De acordo com Linaldo Barreto, engenheiro da Seduh, um dos objetivos foi que a pintura diminuísse o efeito das ilhas de calor. Quando as obras de contenção de encostas contam apenas com o concreto, o calor do sol é absorvido e refletido de volta para as casas do entorno, causando o aumento na temperatura.

“A pintura diminui muito o reflexo da temperatura sobre essas casas”, explica Linaldo.

Novo recorde mundial

Junior Souza/JC Imagem
Mural em Jardim Monte Verde tem mais de 40 mil m² – Junior Souza/JC Imagem

O painel, quando concluído, será submetido ao Guinness Book pelo Governo de Pernambuco.

“A obra em Jardim Monte Verde já é a maior da categoria no Brasil. Essa intervenção artística de grafite também será”, prevê o secretário executivo de Desenvolvimento Urbano da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Francisco Sena.

Atualmente, o maior mural de grafite do mundo é uma obra do brasileiro Eduardo Kobra, no estado de São Paulo, com mais de 5 mil m².

Em Jardim Monte Verde, as três encostas somam mais de 40 mil metros quadrados e a menor delas tem área de 14 mil m².



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