O presidente francês, Emmanuel Macron, reiterou que o projeto de acordo comercial é “inaceitável em seu estado atual”, assim como a Itália
Publicado em 05/12/2024 às 22:38
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A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegou a Montevidéu nesta quinta-feira (5) para uma reunião com os presidentes do Mercosul na sexta-feira, com vistas a concluir as negociações para um acordo comercial histórico entre os dois blocos, ao qual França e Itália se opõem ferozmente.
“Nós aterrissamos na América Latina. O objetivo do acordo UE-Mercosul já está à vista. Vamos trabalhar, vamos cruzar a linha de chegada. Temos a oportunidade de criar um mercado de 700 milhões de pessoas”, escreveu Von der Leyen na rede social X.
Seu otimismo contrastou com as mensagens enviadas por Paris e Roma no mesmo dia de sua chegada à capital uruguaia, que receberá, na sexta-feira, a Cúpula do Mercosul.
O presidente francês, Emmanuel Macron, reiterou que o projeto de acordo comercial é “inaceitável em seu estado atual”. Na mesma linha, a Itália considerou que “não estão reunidas as condições” para assinar um acordo. Ambos insistem em proteger o setor agrícola.
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Em Montevidéu, Von der Leyen foi recebida pelo presidente uruguaio, Luis Lacalle Pou, em uma reunião “muito positiva”, segundo o chanceler do país anfitrião, Omar Paganini, que antecipou que faltam “detalhes mínimos” para um texto de consenso que permita avançar para um futuro acordo de livre comércio.
A Comissão Europeia, órgão executivo da UE, é a instância negociadora de acordos comerciais do bloco. Mas os tratados devem ser ratificados pelos países para entrarem em vigor.
Os presidentes de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, membros fundadores do Mercosul que buscam fechar o acordo com a UE, darão uma coletiva de imprensa conjunta com Von der Leyen às 9h30 desta sexta-feira (6).
“Esperamos poder dar a boa notícia” do documento finalizado, disse o chanceler uruguaio.
Vinte e cinco anos de negociações
Há quase 25 anos, o Mercosul vem negociando um TLC com o bloco europeu que foi adiado inúmeras vezes, em meio a tensões sobre questões sensíveis, como proteção ambiental ou compras públicas.
Já em 2019, a UE e o Mercosul haviam anunciado a conclusão de um pacto, mas o processo foi paralisado sem ratificação. Agora, de acordo com fontes familiarizadas com as negociações consultadas pela AFP, as partes chegarão a um acordo técnico que evoluiu nos últimos cinco anos, com modificações em “vários capítulos”.
Espanha, Alemanha e a maioria dos países europeus estão pressionando para concluir essas negociações prolongadas, alguns meses antes de o republicano Donald Trump assumir a Presidência nos Estados Unidos e dispor, como prometeu, de um aumento generalizado das tarifas alfandegárias.
A Europa espera exportar carros, máquinas e medicamentos para o bloco sul-americano, que faz parte de uma região fortemente influenciada pela China, enquanto o Mercosul espera vender mais gêneros alimentícios, como soja, carne e mel, para a Europa.
Mas o setor agropecuário europeu rejeita em uníssono um acordo com o Mercosul por considerar que vão competir em condições desiguais.
ONGs europeias e ativistas de esquerda acreditam que esse projeto aceleraria o desmatamento da Amazônia e agravaria a crise climática. O Greenpeace denuncia um texto “desastroso” para o meio ambiente.
Nem tudo está dito e feito
Além da vontade da Comissão e do Mercosul de encerrar uma etapa desse longo processo, nada garante que um entendimento em Montevidéu terminará em um TLC.
“Há uma mensagem de apoio irrestrito da Comissão ao Pacto Verde (europeu) e às questões ambientais e acordos comerciais. E para (o presidente brasileiro Luiz Inácio) Lula (da Silva), ele (o TLC) é extremamente importante para conter (Javier) Milei”, o presidente argentino ultraliberal que não é exatamente um fã do Mercosul, explicou à AFP Ignacio Bartesaghi, professor da Universidade Católica do Uruguai e especialista na história do Mercosul.
Um acordo permitiria a Lula “mostrar algum sucesso no Mercosul e apaziguar os ânimos com a flexibilização”, disse o analista, em alusão às exigências do Uruguai de negociar acordos com terceiros sem o consentimento do bloco, uma posição que poderia ser apoiada pela Argentina e que é fortemente combatida pelo presidente brasileiro.
Uma vez finalizado o texto com o Mercosul, ele deve obter a ratificação de pelo menos 15 países do bloco, representando 65% da população, e a maioria do Parlamento Europeu.
Isso ainda está longe de acontecer nesta etapa. Ao repúdio da França e da Itália, soma-se a reticência de Polônia, Áustria e Países Baixos.
No caso do Mercosul, “cada país o aprova e entra em vigor separadamente”, disse à AFP uma fonte do bloco próxima às negociações.
A cúpula de Montevidéu, que reunirá os quatro parceiros originais do Mercosul desde 1991, a Bolívia, recentemente integrada, além dos estados associados, incluindo Chile e Colômbia, também receberá o Panamá como membro associado.

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