Uma orquestra sem maestro, tocando Beethoven em perfeita sincronia e com toda a riqueza de detalhes que a música exige. Essa imagem pode ser tomada como promessa de um futuro mais democrático, ou então como um sonho bonito, mas perigoso —como no “Ensaio de Orquestra“, filme de Fellini em que a revolta contra o regente desemboca em caos e destruição.
Seja como for, neste domingo (8), a Mahler Chamber Orchestra trouxe a utopia para o palco do Teatro Cultura Artística —e isso antes mesmo da chegada da pianista chinesa Yuja Wang, principal causa da fila que se formou na porta do teatro.
Em lugar do habitual rito hierárquico —em que primeiro entra a massa dos músicos, depois o primeiro violino e, por fim, o maestro—, a orquestra veio de uma só vez. Para todos atacarem juntos os acordes da “Abertura Coriolano” opus 62, bastou um aceno do primeiro violino, o alemão de origem brasileira José Maria Blumenschein. A partir daí, os 40 músicos de mais de dez nacionalidades diferentes navegaram com facilidade a partitura de Beethoven, trocando olhares entre si como se fizessem música de câmara.
Foi um ótimo início para um programa que ficou ainda melhor com a entrada de Wang, uma das artistas mais aguardadas desta temporada. A pianista, que tem o costume de escolher a dedo uma peça de alta-costura para cada obra apresentada, apareceu com um ousado vestido de vinil branco e, surpreendentemente, não se sentou de pronto ao piano.
Em pé diante do instrumento, Wang regeu —de modo sumário e pouco claro— o início do “Concerto para piano nº 2” de Chopin. Quando a orquestra terminou de expor os temas do movimento, a pianista rapidamente se reposicionou e repetiu as mesmas melodias, agora ornamentadas de modo expressivo e entremeadas com volteios velozes.
Escrito quando o compositor mal havia deixado a adolescência, o concerto não é tido como uma de suas obras mais inspiradas, sobretudo no caso do primeiro e do terceiro movimentos. Isso só aumenta o mérito de Wang, que conseguiu arrancar poesia de passagens que muitas vezes soam como meros exercícios de velocidade. Naturalmente, o resultado foi ainda melhor no segundo movimento, em que a poesia está mais à mão.
A segunda parte do programa começou com um destacamento de 15 músicos da orquestra tocando o “Concerto em Mi bemol, Dumbarton Oaks”, uma recriação modernista dos “Concertos de Brandenburgo” de Bach escrita por Stravinski no final da década de 1930.
Tal como num verdadeiro concerto barroco, nessa peça os instrumentistas se alternam no papel de solistas —o que, nesse contexto, serviu para realçar o espírito democrático do grupo, criado pelo maestro italiano Claudio Abbado em 1997 com o intuito de buscar uma maneira mais horizontal de se fazer música orquestral.
Para encerrar a noite, Wang retornou trajando um vestido vermelho para tocar e reger uma das peças mais populares do repertório: o “Concerto para piano nº 1” de Tchaikóvski. Optando por andamentos acelerados, sua interpretação enfatizou o vínculo da obra com a dança —um elemento marcante do estilo do compositor, também conhecido por seus balés.
Nas passagens líricas, a pianista esculpiu as frases com um olho nas minúcias e outro na estrutura da peça. Nos trechos virtuosísticos, conseguiu manter o mesmo patamar de musicalidade, valendo-se para isso de uma agilidade assombrosa.
Aliás, ninguém duvida da excelência técnica de Wang, uma virtuose que há duas décadas vem acumulando prêmios. O que se escutou ontem no Teatro Cultura Artística, porém, vai mais longe. A artista mostrou que, além de fazer o que quiser com o piano, sabe perfeitamente o que quer com as obras que interpreta.
Colocando seus imensos recursos pianísticos a serviço das composições, Wang apresentou leituras marcantes dos dois concertos românticos escolhidos para o programa, revelando o brilho de um Chopin desigual e lançando uma nova luz sobre um Tchaikóvski conhecido demais. Não é pouco para uma única noite de música.
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