Há quantas formas grotescas de matar alguém? Será que, depois do quinto esquartejamento, o assassino já não se sente entediado? O corpo humano —ou melhor, o látex coberto de sangue falso— não vai reagir sempre da mesma maneira? Em “Terrifier 3”, os efeitos especiais são muito realistas, mas e se o frescor da ultraviolência tiver passado?
O terceiro capítulo da franquia de terror ressuscita o demoníaco palhaço Art, encarnado mais uma vez por David Howard Thornton. Cinco anos depois dos acontecimentos do antecessor, a sobrevivente Sienna Shaw, interpretada por Lauren LaVera, terá de enfrentar seu pior pesadelo. De novo.
Apesar da sanguinolência, a franquia “Terrifier” é o sonho americano de qualquer cineasta independente. Escrito e dirigido por Damien Leone, que também assina os efeitos especiais, o primeiro longa custou algo em torno de US$ 35 mil e foi abraçado pelos fãs de terror, apesar das críticas que recebeu com relação ao roteiro fraco.
Já “Terrifier 2” contou com uma campanha de financiamento coletivo e obteve um orçamento maior, de US$ 250 mil. Leone se atentou às críticas negativas e, desta vez, ancorou a trama em uma nova protagonista. Com um salto significativo de qualidade, o filme se tornou um fenômeno do boca a boca e faturou mais de US$ 15 milhões na bilheteria.
A sequência lançada há dois anos foi um dos marcos importantes na guinada mais grotesca do gênero, depois de tantos anos lidando com as temáticas mais intelectualizadas do chamado “terror elevado” ou “pós-horror”. De certa forma, “Terrifier 2” andou para que os minutos finais de “A Substância” pudessem correr.
Em “Terrifier 3”, no entanto, já não há uma melhora muito perceptível com relação ao anterior. Os cenários são bem elaborados e a fotografia é vistosa, mas o roteiro parece estagnado, sem saber muito bem para onde ir. Considerando que já há planos para mais duas sequências, a falta de vigor na narrativa poderá ser um problema.
Filmes de terror sangrentos como esse, os chamados “slashers”, são repetitivos por natureza. Sabemos que, num “Sexta-Feira 13” típico, Jason retorna à vida e sai caçando jovens que estiverem usando drogas ou fazendo sexo. Entre um filme e outro, se destacam os personagens mais carismáticos, alguns momentos inusitados de humor ou as mortes mais inesquecíveis —como a do nitrogênio líquido em “Jason X”, também utilizado por Leone.
De fato, há cenas impactantes em “Terrifier 3”, como a sutil homenagem que Leone presta à clássica cena do chuveiro em “Psicose” —com a diferença de que não é mais uma faca afiada que surpreende a vítima, mas uma motosserra barulhenta. O diretor sabe que o exagero é a sua marca registrada, mas a carnificina já não impressiona tanto como antes.
Art é um vilão fascinante pela sua maldade anárquica e cartunesca. Em muitas produções de terror, há um acordo silencioso de que a morte de crianças não deve ser retratada —aqui, uma regra quebrada logo nos primeiros minutos, para mostrar ao espectador que ninguém estará a salvo. Seu traço mais interessante, porém, é justo o mais evidente. Ele é um palhaço.
O timing cômico e a mímica de Thornton são o que tornam Art tão especial. É o movimento que ele faz com os ombros ao escutar alguém que o compara com Jack, o Estripador; ou a inocência que ele expressa quando encontra o Papai Noel “de verdade” sentado em um bar. É como um Freddy Krueger do cinema mudo. Pura imagética.
É uma pena que Leone ainda não tenha percebido que, para além da crueldade absurda, a grande graça de “Terrifier” é a comédia silenciosa de um palhaço ensandecido. No fim, Art é quase jogado de escanteio enquanto Victoria Heyes, protagonista do original, faz o seu discurso vilanesco para Sienna —com quem ela mal tem relação.
Com um Art subaproveitado e uma mitologia cada vez mais confusa, “Terrifier 3” desaponta —mas ainda resta a esperança de que Leone possa, mais uma vez, recalcular a rota e apostar ainda mais no humor físico de seu ator. Ria, palhaço, ria, e todos aplaudirão. Transforma em risos os espasmos do nosso pranto.
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