Crítica: ‘Senhora dos Afogados’ conquista pelo sarcasmo contagiante do coro

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Crítica: ‘Senhora dos Afogados’ conquista pelo sarcasmo contagiante do coro


Senhora dos Afogados” é a primeira grande produção do Teatro Oficina após a morte de seu criador —o ator, dramaturgo e diretor José Celso Martinez Corrêa. E leva adiante um desejo que o artista alimentou por anos sem chegar a concretizar: encenar um dos mais difíceis e complexos textos de Nelson Rodrigues.

Muito conhecido por suas criações que ambientam os dramas da sociedade brasileira no microcosmo do Rio de Janeiro, Nelson também escreveu quatro peças que são classificadas como míticas. Nesses títulos, o olhar não se detém na dinâmica dos subúrbios cariocas, mas em mitos universais, de forte caráter simbólico e estreita vinculação com os arquétipos da herança grega.

Coube a Monique Gardenberg levar adiante a missão de encenar “Senhora dos Afogados” junto aos discípulos de Zé Celso. Diretora experiente, ela é reconhecida ainda hoje por seu trabalho em “Os Sete Afluentes do Rio Ota” —um dos grandes espetáculos dos anos 2000. Para a montagem atual, selecionou um elenco estelar. Combinou integrantes históricos do Oficina, como Marcelo Drummond e Sylvia Prado, a atores que —mesmo tendo trilhado trajetórias independentes do grupo— tiveram suas carreiras fortemente impactadas pelo encontro artístico com Zé Celso, como Giulia Gam e Leona Cavalli.

Outros atributos significativos da encenação são, curiosamente, aspectos nos quais as estéticas do Oficina e da encenadora se aproximam. São eles: a aptidão para usar a música, a presença forte do audiovisual desvelando outros pontos de vista para o espectador, assim como sua capacidade de criar cenas visualmente impactantes.

Obra emblemática da arquitetura brasileira, o Teatro Oficina propõe um espaço distinto dos tradicionais palcos italianos. Ali, os espectadores sentam-se em galerias laterais e a ação se dá num palco-passarela. O formato propõe tanto desafios quanto vantagens. Uma delas é a criação de situações de interação com a plateia, borrando os limites entre o fora e o dentro da cena; outra é a possibilidade de se criar cortejos cênicos, um dos aspectos mais marcantes da visualidade de Zé Celso, que valorizava a festa, a coletividade e a dimensão performática do teatro.

Ciente dessas potencialidades, a presente versão de “Senhora dos Afogados” explora um dos elementos-chave desse texto rodriguiano. Para escrever sua história sobre a família Drummond —um clã devastado por assassinatos e paixões incestuosas— Nelson inspirou-se declaradamente em Eugene O’Neill e em sua “Electra Enlutada”. O grande autor americano, por sua vez, bebera diretamente em Ésquilo e sua Oresteia.

Lá, Agamemnon retornava da guerra de Tróia e reencontrava a mulher adúltera, Clitemnestra, e a filha Electra. Na releitura rodriguiana, vários elementos se deslocam, outros motores movem os crimes, mas permanecem dois dos pilares centrais da tragédia: a paixão incestuosa que a filha Moema, papel de Lara Tremouroux, alimenta pelo pai Misael, personagem de Marcelo Drummond, e a onipresença do coro, a comentar a cena e guiar o espectador.

Sempre à espreita, o coro de vizinhas —representado com brilho por Giulia Gam, Cristina Mutarelli, Michele Matalon e Ligia Cortez— é o ponto alto da montagem. Cabe-lhes a ironia, o comentário sarcástico, o respiro humorístico e até mesmo o ritmo da narrativa. Enquanto Moema e D. Eduarda, vivida por Leona Cavalli, dilaceram-se internamente, as vizinhas traduzem isso em discursos públicos, vertendo a tragédia íntima para o âmbito comunitário.

Em papel análogo ao coro grego, que orientava a leitura do público, as vizinhas sugerem como os fatos devem ser enquadrados, expressam o julgamento moral da sociedade e até mesmo esclarecem a plateia sobre as motivações das personagens principais.

A despeito da declarada admiração por Nelson Rodrigues, Zé Celso encenou apenas uma de suas peças: um bem-sucedido “Boca de Ouro“, em 1999. É impossível saber qual teria sido sua abordagem diante de Senhora dos Afogados. Mas pode-se afirmar que a dramaturgia, com seu inusitado lirismo, impõe dificuldades que a condução de Gardenberg e parte do elenco não puderam contornar.

Ainda que escapem com êxito do melodrama, que tantos crimes e assassinatos poderiam suscitar, falta encontrar a chave para algumas questões de interpretação. O amor desmesurado de Moema —que a faz matar as irmãs para ser a única aos olhos do pai—, assim como a contenção total de Misael —que não se permitiu um único gesto de amor nem mesmo no casamento—, pairam desencarnados, irrealizados, sem encontrar lugar nas atuações.



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