São palavras, mas é também o sopro do vento Aracati que refresca o solo por onde circulam os personagens de Ronaldo Correia de Brito.
Nascido no Ceará em 1951 e médico de formação, o escritor retoma em “Rio Sangue” a geografia agreste e as matrizes míticas de outros de seus escritos, como o admirável volume de contos “Faca”, de 2003, e “Galileia”, de 2008, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura.
Neste quarto romance, Correia de Brito mergulha na rivalidade entre os irmãos João e José na saga ambientada em tempos coloniais. Deslocada do norte de Portugal, a família ocupa o chão nordestino e se adapta às leis do sertão. Entre vaqueiros, viajantes e tropeiros, Deus e o diabo andam soltos por ali, castigando mais uns do que outros nesse desterro sertanejo.
Descrito como cão raivoso, João destrata mulher e filha e cai de amores por Brites Manoela, mulher livre para os padrões da época. Menos agressivo que o irmão, José vira padre, mas se relaciona com uma indígena jucá que desde a adolescência sofre suas investidas. Dessa relação torta nascerão dez filhos, dez brasileiros de sangue mestiço.
São tempos de Inquisição, em que as garras do Santo Ofício inspecionam a vida íntima de qualquer um. Ainda que viva em desacordo com as regras da Igreja, José atua nos autos de fé e escapa de qualquer punição. “O sertão não obedece às leis do senhor crucificado no altarzinho onde José celebra missa quando se sente disposto a rezar. O sertão tem suas próprias leis.”
Na mesma fazenda Umbuzeiro vive Kayin, tornado Fabião por força da aculturação decorrente da captura na África. Exímio vaqueiro, poeta e tocador de rabeca, ele representa outra faceta da vida truculenta no Brasil dos anos 1600.
Fundamentada em sólida pesquisa histórica, a narrativa por vezes dá lugar a descrições acessórias, em que o didatismo quebra o ritmo do romance, a exemplo dos momentos em que o narrador se demora em pormenores da sociedade colonial. Quando retoma o andamento, não é difícil perceber a elegância do fraseado de Correia de Brito.
As horas lentas, o calor da seca e os dramas privados são explorados com precisão pelo autor, que construiu uma ambientação aproximada pelo crítico Davi Arrigucci Júnior daquela de Graciliano Ramos.
É também o território cabralino, de uma realidade reduzida à essencialidade, que grita em sentenças como “a sesmaria é um reino de lonjuras e pedras silenciosas, que educam a não falar”. Mas o mundo de precariedade em “Rio Sangue” toma outro caminho que não a linguagem descarnada de João Cabral de Melo Neto, e o autor elege o relato caudaloso para acolher as histórias lidas e ouvidas nos serões, terreiros, cozinhas e roçados.
Da língua solta brotam belas passagens em que proliferam núcleos narrativos dos sujeitos a transitar por ali, trazendo a perspectiva de narradores orais em meio a uma sociedade fortemente hierarquizada —negros escravizados e indígenas explorados, mulheres castigadas e violadas. Ao puxar pela memória os cacos de testemunhos pessoais, eles contestam, ao seu modo, a história oficial.
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O esquecimento do idioma de cada povo e o abandono das raízes retorna na forma de crendices, contos de assombração e causos ditos ao redor do fogo. O tempo fica suspenso e se apuram os ouvidos.
Nesse círculo de falantes, surge a figura de alguém que escreve os relatos, articulando em um livro possível as histórias passadas de boca em boca. “É necessário correr o risco e narrar, pois assim também se adia a morte.” O romance emoldura esse coral heterogêneo, hospedando as vozes batizadas pelo sangue do sertão.
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