A HarperCollins está lançando agora no Brasil “O Manuscrito”, romance de 2009 escrito por Elif Shafak, autora turca radicada nos Estados Unidos. O título brasileiro, porém, pode passar uma impressão errada.
Por exemplo, quando o trailer de um filme de terror faz parecer que é uma comédia, ele se dá dois tiros nos pés: o primeiro por afastar um público que teria gostado do filme; o segundo por atrair um outro público que terá suas expectativas frustradas.
O título “O Manuscrito” pode dar a entender que essa talvez seja uma obra erudita, sobre livros e bibliotecas, atraindo pessoas que gostaram de “O Infinito em um Junco”, de Irene Vallejo, ou “Como Organizar uma Biblioteca”, de Roberto Calasso.
Já o título original, por outro lado, representa mais fielmente o espírito e o tema da obra e provavelmente atrairia melhor seu público-alvo: “The Forty Rules of Love”, traduzível como “As Quarenta Regras do Amor”. Por que foi trocado?
O livro conta a história de Ella, uma dona de casa americana que, como tantas, dedicou a vida aos filhos e ao marido e, de repente, se descobre vivendo uma vida solitária e sem sentido.
Fazendo frilas para uma agência literária, ela recebe um manuscrito para avaliar, “Doce Blasfêmia”, uma ficção histórica sobre a vida do poeta persa Rumi escrita por um certo Aziz Zahara. A narrativa alterna trechos sobre a vida de Ella e capítulos do manuscrito.
No primeiro eixo, acompanhamos quando ela finalmente junta coragem para começar uma correspondência com o autor e lhe pedir uma foto: ele envia uma de si mesmo, europeu branco de olhos verdes, cercado de criancinhas pobres em uma vila asiática. Shafak parece não perceber o quanto esse tipo de foto, por si só, já se transformou em estereótipo de insensibilidade ocidental.
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Ella é a caricatura da mulher de meia-idade, entediada, desinteressante e em busca de um grande amor, e Aziz é a caricatura dessa idealização: um homem perfeito, misterioso e espiritualizado, que só se comunica por meio de pérolas de sabedoria. É como um namoro entre o clichê e o lugar-comum.
Já os capítulos extraídos do manuscrito de “Doce Blasfêmia” são quase bons e remetem aos melhores momentos de “O Alquimista”, de Paulo Coelho. Neles, voltamos ao século 13 e acompanhamos o fascinante processo através do qual o dervixe itinerante Shams de Tabriz transformou Rumi de um teólogo careta no grande poeta místico que a história recorda.
Infelizmente, mesmo nos melhores momentos de “O Manuscrito”, nunca parece que estamos lendo literatura, mas um livro de autoajuda ficcionalizado, escrito sob medida para transmitir e ilustrar as tais “Quarenta Regras da Religião do Amor” que o sufi Shams vai expondo didaticamente capítulo por capítulo.
A Folha noticiou o surgimento do gênero “literatura de cura”, ou seja, “histórias de acolhimento cotidiano a leitores ávidos por tranquilidade”. Talvez seja apenas um outro modo de dizer “autoajuda ficcionalizada”, da qual essa simplificação e regurgitação de sabedoria oriental que é “O Manuscrito” seria um subgênero. Na falta de um nome, McMindfulness.
A melhor faceta do livro está em sua descrição do misticismo, um conceito que não tem nada a ver com magia, mas com a obtenção de conhecimento além das palavras, de uma experiência direta com o transcendental.
O embate entre o misticismo libertário de Shams e a teologia institucional representada por Rumi e seu entorno não poderia ter sido mostrado de forma mais didática. Daí, de novo, o problema.
Para as pessoas interessadas em Rumi, uma leitura mais recomendada é “A Flauta e a Lua”, publicado pela Bazar do Tempo em 2016, que além de seus poemas traduzidos pelo imortal Marco Lucchesi também traz ensaios de Leonardo Boff e Faustino Teixeira.
Já o mais recente “A Mística e os Místicos”, da editora Vozes, traz diversos artigos explicativos sobre as diferentes tradições místicas mundiais e seus expoentes mais importantes.

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