Crítica: ‘O Bebedor de Vinho de Palma’ abriu caminhos à literatura africana

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Crítica: ‘O Bebedor de Vinho de Palma’ abriu caminhos à literatura africana


No imaginário da feitura de um romance, é normal evocar a figura de um autor solitário e compenetrado que produz obras-primas em um ambiente confortável, apartado das demandas cotidianas.

O escritor nigeriano Amos Tutuola, no entanto, depois de tentar a vida como serralheiro e latoeiro, escreveu o romance “O Bebedor de Vinho de Palma e seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos” nos momentos de folga do trabalho na administração colonial da Nigéria.

Carolina Maria de Jesus exerceu o ofício de escritora no “Quarto de Despejo”, entre o trabalho de catadora de papel nas ruas de São Paulo e os cuidados com os filhos. Toni Morrison acordava de madrugada para aproveitar o tempo que tinha antes de as crianças despertarem para a escola.

São trajetórias que ajudam a compreender que a literatura e seus autores resultam de uma gama de possibilidades identitárias e, portanto, narrativas.

Ancorado em seu lugar de origem e nas tradições orais iorubás, Tutuola se apropriou do inglês estudado até o sexto ano para escrever e lançar em 1952, no Reino Unido, o primeiro romance africano publicado fora do continente. A obra ganhou recentemente uma nova edição no Brasil.

O livro tem como personagem principal um homem “bebedor de vinho de palma desde os dez anos”. No entanto, o protagonista também é um deus e um homem carregado de jujus —objetos mágicos que permitem que se transforme em outras coisas. Essas possibilidades partem de uma cosmovisão que organiza de maneira singular o mundo e a relação dos espíritos com os humanos.

Neste caminho, o personagem igualmente se nomeia “Pai dos Deuses”, ou melhor, “Pai dos Deuses que Podia Fazer de Tudo Nesse Mundo”. Ele era o mais velho de oito filhos muito trabalhadores e, diante do hábito de beber, o seu pai não o coibiu —pelo contrário, deu a ele uma fazenda de palmeiras.

Ali, contava com um fazedor que exercia com maestria o ofício de encher diariamente 150 barris de vinho de palma pela manhã e mais 75 barris, consumidos até a manhã seguinte.

A jornada do personagem começa quando o seu pai morre e, após seis meses, o seu fazedor também perde a vida no pé de uma palmeira. Como os mais velhos lhe diziam que quem morre “fica morando num lugar em algum canto desse mundo”, ele decide procurar o seu finado fazedor para continuar usufruindo do vinho à sua maneira.

Através de inúmeros ritos de passagem, o “Pai dos Deuses” atravessa matas, contando sempre com a sabedoria oracular de sua esposa. No livro não há uma separação entre o mundo dos vivos e dos mortos, e as peripécias do narrador não acontecem em um território distante do lugar de sua existência.

Sua travessia materializa no texto a cosmovisão iorubá e suas tradições orais, tendo como ponto de partida uma noção de realidade em que tudo se transforma e tem vida. O fluxo singular de suas andanças não tem como matriz a visão ocidentalizada de real ou verossímil, direcionando nossa compreensão da obra para além da noção de literatura fantástica.

Por meio da narrativa, encontramos entidades como a mata que “não queria que ninguém permanecesse lá por mais tempo do que o necessário”, palmeiras desfolhadas que riam e a própria Risada, “criaturas vivas que nem a gente”.

A oralidade está no ritmo do texto, numa espontaneidade que aparece por repetições vocabulares que aproximam o texto da performance oral. As escolhas de Fernanda Silva e Sousa na tradução contribuem para aproximar o narrador do leitor e do tempo presente da narrativa, com a sensação de estar em companhia de um bom contador de histórias.

A trajetória do homem-juju ajuda a compreender que o seu vício em vinho de palma não é um problema em si. Só o direciona a uma jornada singular em que as novas experiências o permitem aprender algo sobre sua vida. As provações e dificuldades resultam na riqueza que é a própria experiência.

A leitura de Amos Tutuola oferece uma jornada permeada pelo movimento, como se nós mesmos, carregados de búzios e jujus, pudéssemos presenciar a potência das substâncias vivas do mundo.



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