Refilmar um clássico do cinema não é uma prática necessariamente ruim. A refilmagem pode ser bastante digna, eventualmente até melhor que o original. Tudo depende do tratamento que se dá à nova versão, o que envolve escalação do elenco e diversas escolhas da direção.
Infelizmente, não temos um bom resultado com “O Beijo da Mulher Aranha”, refilmagem dirigida por Bill Condon do primeiro filme internacional de Hector Babenco, lançado em 1985.
A trama é baseada no livro de Manuel Puig, ambientado na ditadura militar argentina e publicado em 1976. Um homossexual, Luis Molina, apanhado em conduta imprópria num banheiro público, divide a cela com Valentin Arregui, um prisioneiro político.
Molina adora cinema e começa a falar de um musical que viu antes de ser preso. Aos poucos, o carrancudo Valentín se interessa pelo filme narrado e se afeiçoa ao companheiro de cela. Mas Molina está ali para descobrir os aliados de Valentín na guerrilha. Sua missão na cadeia é fazer amizade para então trair. Eis o seu dilema.
O primeiro problema é o ator Tonatiuh, que é ótimo, mas não é William Hurt, que interpretou Molina magistralmente no filme de 1985. O segundo é Diego Luna, que não tem o carisma de Raul Julia, o antigo Valentín. Na coluna do meio, Jennifer Lopez se iguala a Sonia Braga, a mulher aranha original.
Por outro lado, o filme dentro do filme —as imagens que surgem à medida que Molina narra o que viu— funciona melhor na versão de Condon, talvez por sua maior desenvoltura no musical e pelo apuro na combinação de cores, ainda que, em certos momentos, seja travado e, em outros, assuma um tom cafona.
Há um contraste maior entre as cenas na prisão, mais escuras e sombrias que no original, e as cenas do filme narrado por Molina, espalhafatosamente colorido aqui, enquanto no original está em tom de sépia, como um drama histórico.
Neste musical dentro do filme, Luna interpreta o protagonista, um fotógrafo que se apaixona pela personagem de Lopez. Molina diz que ele é seu ideal masculino, projetando seu companheiro de cela no ator que teria visto. Mas viu mesmo? Ou o imaginou? Não importa.
O que importa é a crescente amizade entre os dois prisioneiros. Tonatiuh está no musical que seu personagem narra, em mais uma projeção de sua personalidade. Essa projeção, aliás, logo é combatida por Valentín, que não aceita ver o amigo se inferiorizando para outros.
A aproximação entre os dois prisioneiros é mais rápida no novo filme, o que abre mais espaço para cenas musicais, talvez por receio de que as imagens sombrias da cadeia incomodassem os espectadores.
E aí temos mais um problema, pois essa narração que visualizamos pode ser melhor que no filme de Babenco, mas não é melhor que a interação dos dois prisioneiros. Pelo contrário, é anticlimática. Sempre que sai da prisão, o filme se enfraquece.
Entre original e refilmagem, 40 anos se passaram. Nesse período, o cinema brasileiro descobriu um fundo falso no poço, teve sua retomada e hoje vive um de seus melhores momentos do ponto de vista da produção de filmes.
O cinema americano, por outro lado, decaiu cada vez mais dos anos 1980 em diante, até se tornar uma pálida versão da fábrica de sonhos de outrora, salvo um ou outro longa de autores como Clint Eastwood, Michael Mann ou Kelly Reichardt.
Bill Condon era promissor nos anos 1980, quando fez um belo exercício a Brian De Palma com “Segredo em Família”, de 1987. Nos anos 1990, entre telefilmes e longas para cinema, manteve-se acima da média.
Em alguns casos, mais do que isso. Seu “Deuses e Monstros”, de 1998, é bem decente, e o mesmo podemos dizer de “Kinsey: Vamos Falar de Sexo”, de 2004.
Na verdade, sua filmografia é toda interessante até “Dreamgirls”, de 2006, um subestimado musical. Depois de um hiato de cinco anos, ele entra de cabeça na série “Crepúsculo”, com dois longas bem problemáticos. Desde então se tornou um diretor irregular.
“O Beijo da Mulher Aranha” é seu primeiro longa em seis anos. Ou seja, o primeiro depois de “A Grande Mentira”, de 2019, com uma pandemia no meio. Infelizmente, não se pode falar em volta à boa forma.




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