Crítica: Micheliny Verunschk faz da linguagem uma arma contra a colonização

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Crítica: Micheliny Verunschk faz da linguagem uma arma contra a colonização


A linguagem é uma arma de guerra da colonização. O batismo católico, ao capturar a identidade do indígena e do africano, e a aplicação de conceitos como “bárbaros” ou “selvagens”, em oposição a uma suposta ideia de civilidade, têm como finalidade tomar posse do corpo do outro, seja para incorporação à economia de guerra ou como justificativa de sua aniquilação.

Em “Depois do Trovão”, Micheliny Verunschk faz da linguagem uma arma de guerra também, desta vez, contra a história oficial.

A partir da narrativa memorialística do personagem Auati, já próximo de sua morte, vivenciamos o cotidiano das campanhas sanguinárias promovidas pela Coroa portuguesa contra os tapuias, durante a chamada “Guerra dos Bárbaros”, e contra o Quilombo de Palmares.

O sertão nordestino, espaço constante da literatura brasileira, dessa vez é narrado pela voz indígena.

Auati apodera-se de diversas línguas —o português castiço, o nheengatu e o tupi-guarani, entre outras— para contar sua própria trajetória desde a infância, entre portugueses, “bugres”, mamelucos, brasileiros, cafuzos, angolas, e a pluralidade de povos indígenas.

Nesse sentido, Verunschk rasura a voz do colonizador, daquele que detém o poder de nomear. Pela escrita de Auati, saem de cena os termos oficiais, sacralizados pela Coroa, substituídos pelo perspectivismo indígena em consonância com a natureza e os mitos.

“E donde se lia ‘História da Guerra Grande’ troquei por ‘Da Segunda Mordida de Yaguarový’. E acho que está mais certo agora.”

Dessa forma, vemos uma junção entre o tempo narrativo e o desejo de inscrição na história das vozes apagadas por sucessivos conflitos que duraram mais de 50 anos.

Obrigado a fazer parte das campanhas de conquista, Auati reflete sobre a violência cotidiana. Obrigado a cortar as orelhas dos “bárbaros”, questiona-se sobre serventia daqueles restos, talvez destinados a El Rei. “Para que a Majestade, ela mesma, se fartasse, com a dona sua mulher e mais seus filhos (…) comungando daquela merenda. Suussuú, suussuú, suussuú, iam todos mastigando.” Quem são os bárbaros agora?

Estamos diante de um romance fiel a fatos históricos, incluindo personagens como o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, responsável direto pelo massacre de inúmeros aldeamentos indígenas e pela derrocada final de Palmares. Mas também de um romance-vingança, indissociável das memórias e do corpo de Auati, fruto ilegítimo do encontro entre o jesuíta Pay Deré e a bugra Maria Grã.

Os procedimentos de vingança desdobram-se entre a escrita e a ação, a começar pela inclusão da letra y —cuja sonoridade em tupi-guarani é uma das bases da língua— ao nome do pai ̸ padre do narrador. Rasurar o nome do pai, representante do Deus ocidental e da Coroa, torna-se também uma forma de Auati se reconciliar consigo.

A busca de Auti pelo próprio eu é a narrativa que corre em paralelo. E nisso Verunschk acerta ao assumir que não há origem, em terras colonizadas, para onde se possa voltar. “Tive três nomes ao longo da vida. O primeiro foi Auati (…) e este meu nome em segredo, escondido dos abarés jesuítas.”

Ao ir para a guerra, ele é batizado como Joaquim Sertão. Por fim, há uma nomeação inesperada, reveladora de afetos e do próprio corpo. Múltiplo, mestiço de raças, línguas e culturas, Auati, em suas palavras, é possuidor de uma “natureza escorreguenta”.

Contra a voz do colonizador, que ainda vigora entre nós, a autora propõe uma escrita deslizante, devoradora, como Yaguarový, o jaguar faminto, que ronda os céus durante os eclipses. A violência em “Depois do Trovão” é forma constitutiva do processo colonial, mas também uma resposta ofertada pela ficção aos fatos históricos.



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