Crítica: ‘Mestre dos Batuques’ de Agualusa põe soberania de Portugal em xeque

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Crítica: ‘Mestre dos Batuques’ de Agualusa põe soberania de Portugal em xeque


Em janeiro de 1902, na montanha Halavala, em Angola, 25 soldados europeus foram encontrados sem vida em um acampamento militar. Os corpos não apresentavam nenhuma ferida, “nenhum corte de lâmina, buraco de bala, hematomas ou contusões”. O mistério e a incompreensão sobre o que sucedera a esses soldados marca o início do livro “Mestre dos Batuques”, novo romance do escritor e jornalista angolano José Eduardo Agualusa.

A obra tem como cenário o planalto central de Angola, mais precisamente o Reino do Bailundo, e ocorre durante o conflito armado para a libertação da região do jugo colonial português. Apesar da descrição impressionante marcar o início do primeiro capítulo e da guerra figurar como contexto da narrativa, esse tipo de detalhamento é quase raro no corpo do livro.

De forma sensível, passeamos pelo romance entre Jan Pinto, jovem militar, e Lucrécia Van-Dunem, luandense filha de comerciantes. Mais do que cenas de batalhas, conhecemos o poder ancestral dos batuques, a autonomia e as estratégias de resistência dos guerreiros de Mutu-ya-Kevela.

A complexidade do conflito ocorrido no século 20 não permite que nos limitemos às informações que circularam nos jornais ou livros oficiais de história. Através de uma gama de personagens, Agualusa constrói um percurso que nos ajuda a repensar noções como ficção e história, arquivo e memória.

Existiria apenas uma versão para os fatos ocorridos naquela região? A sociedade secreta dos guerreiros batucadores contesta a possibilidade de uma história única.

A obra é narrada por Leila Lucrécia e constantemente nos deparamos com as suas observações que aparecem destacadas no texto. São pausas que balizam a interpretação, permitindo que a narradora anuncie a sua presença e comunique aos seus leitores as suas verdades. “Faça o favor, querido leitor, de acreditar nelas”.

Após as negociações que definiram as fronteiras e a independência do Reino do Bailundo no interior de Angola, o Diário de Notícias de Lisboa publicou, na manhã de 16 de novembro de 1902, a manchete: “Rei do Bailundo rende-se e reconhece soberania de Portugal em Angola”.

Na contramão das informações apontadas pelo jornal, surge a versão presente nas memórias da família de Leila, “aquilo que de fato foi acordado”. Nas descrições, nos deparamos com o seu exercício de interpretação dos acontecimentos, dos dados colhidos pela memória dos seus ancestrais, o olhar dos supostamente “vencidos”.

Um dos personagens, Luís Mambo, alferes e fotógrafo, afirma: “Só quem duvida pode encontrar a verdade”. Podemos pensar que a verdade da narrativa está na versão dos guerreiros do Bailundo sobre a colonização portuguesa. Talvez o romance de Agualusa seja uma forma de ressignificar a imagem de soberania que atribuímos a Portugal quando falamos daquele período.

O romance nos ajuda a repensar a dicotomia clássica civilização versus selvageria. No livro surge a pergunta: “O que é para si um selvagem?”. Jan em um debate sobre o tema, assevera: “Há muita selvageria, muita maldade, no interior daquilo a que chamamos civilização”.

Major Frutuoso Manso, representante de Portugal, corrobora essa sentença ao demonstrar o seu desejo ávido pelo conflito armado: “E o que ganharíamos nós em impedir a guerra?”

Na oposição entre os “selvagens armados com lanças e flechas” e o “exército moderno” sobressai o mistério dos batuques. No território da narrativa, destaca-se a potência dos tambores e a sua capacidade de atravessar o tempo repercutindo suas “batidas de transe”. Ali ele surge enquanto armamento ou, do ponto de vista do exército português, um suposto “veneno” capaz de provocar alucinações ou uma dor intolerável.

O Reino de Portugal quer saber “de que planta extraem os nativos um veneno tão potente, capaz de desorientar e matar duas dezenas de homens?”. A resposta está na força dos batuques dos bailundos, nos efeitos dos toques dos quimbandeiros, nas “cerimônias mágicas” dos mestres dos tambores.



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