Crítica: Marilene Felinto se rebela com maestria e beleza em ‘Corsária’

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Crítica: Marilene Felinto se rebela com maestria e beleza em ‘Corsária’


Em “Corsária”, novo romance de Marilene Felinto, Lena, a narradora, mais que protagonista, é aquela que não se conforma com a negação de qualquer possibilidade de protagonismo que não seja o de vítima passiva àqueles a quem todo tipo de direito foi usurpado.

Isso começa pelo conhecimento e o reconhecimento da própria origem, do que aconteceu com seus pais e, de quebra, consigo mesma no quesito genealogia. “Herdeira incerta e não sabida”, se rebela contra os exploradores, não sem acusar a mansidão dos explorados.

A mãe, Laiane, foi doada duas vezes na infância, tendo sido adotada por um casal que deixou bens ao outro filho adotivo, legando a ela apenas as memórias de maus tratos e o luteranismo —o suposto pai era pastor.

Segundo uma testemunha ocular, naquela casa, a menina sempre dormira em uma caminha de capim. “Era uma manjedoura?! Então, Jesus Cristo seria minha mãe?! Ora, para ela, eu posso muito bem reclamar um novíssimo testamento, é disso que se trata.”

Por sua vez, o pai, Cristiano, seria filho de uma jovem descendente de holandeses que morreu durante seu parto e teve apagada a relação transgressora com Malaquias, rebento de africanos escravizados. “Sim: para isso vim corrigir o sobrenome roubado de meu pai [van Waerdenburch], para consertar o seu destino de Ninguém.”

Laiane, Cristiano e seus filhos foram ao longo dos anos expulsos “do nada para lugar nenhum”, nem sempre computados nos censos da migração compulsória no alto sertão, e deste para a capital pernambucana, antes de rumarem do Nordeste para o Sudeste do país. Sempre indo atrás de postos de trabalho que lhe renderam mutilações e problemas de saúde nunca indenizados, além de vocações frustradas, preconceito racial e de crença.

“Sou interestadual e deslocada.” Lena se sabe em trânsito, feita de ondas que vêm e vão e do mangue alagadiço de doce e salgado. Avessa a localizações geográficas que não sejam apenas para se reconhecer perdida, ela precisa estar presente em cada uma daquelas localidades para seu acerto de contas, para fazer valer sua “intentona fora de época”, porém nunca fora de lugar. “Eu, que sou regional.”

Então ruma da estrangeira e “quase imortal” Houston para a paisagem semiárida que testemunhou seu nascimento, quase morte, visto que seu umbigo sangrou naquelas primeiras horas. Embora vira e mexe ela repita, “eu que deveria ter morrido aos sete anos de idade”, ela vinga.

“Corsária” é coalhado de leitmotiv, repetições que reforçam e sempre acrescentam alguma dimensão não tocada na menção anterior no texto, o que dá ritmo e profundidade às movimentações internas da protagonista.

É um recurso estilístico que Marilene Felinto sabe muito bem como usar desde “As Mulheres de Tijucopapo”, de 1982, obra que esse novo romance revisita em vários sentidos, como Lena revisita os territórios de sua “ancestralidade rarefeita”.

“As mulheres de Tijucopapo: é como fica tão pouco de tudo, e é como fica tão tudo a ponto de ser herança”, lê-se no romance de estreia da escritora, ecoando mais de 40 anos depois, tão atual.

Entre as sentenças que se repetem ao longo de “Corsária”, topamos ainda com esta: “Se isto fosse uma história”. Ou seja, o que se lê não quer ser lido como invenção ou artefato literário, mas de guerra.

Lena não apenas empreende uma pesquisa documental em busca de provas que ajudem a reparar judicialmente os danos infligidos a seus pais, como o relatório de comprovações se converte também em uma investigação de si, daquela que é “a mulher e o homem de [seu] próprio regimento”, que ama homens e mulheres com liberdade e que, ainda que reforce não suportar histórias de amor, ama, sobretudo ama a justiça.

Assim, comprometida com a apuração da verdade, a voz de Lena entrega o melhor da ficção de Felinto. Fervido na revolta, “Corsária” nos vinga, com maestria e beleza.



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