Crítica: Livro faz ‘tour de force’ erudito sobre as origens da literatura sáfica

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Crítica: Livro faz ‘tour de force’ erudito sobre as origens da literatura sáfica


“De fato, as verdades das mulheres na ficção têm significado problemas desde a época de Cassandra.” Esta frase, numa das últimas páginas de ‘As Filhas de Safo’, resume a tensão vital ali retratada.

A americana Selby Wynn Schwartz estreou na literatura com esta obra em 2021. Logo a obra entrou na lista de livros indicados ao prêmio Booker em 2022, com boa recepção crítica e tradução para algumas línguas. Agora chega ao Brasil elegantemente traduzida por Nara Vidal, em bom momento.

O livro, categorizado como um romance, é na verdade uma mistura de gêneros que não se deixa estabilizar numa prateleira apenas. Pode ser uma espécie de ensaio, um livro de história ou até uma listagem de pequenos acontecimentos interrelacionados.

É o mundo de várias mulheres feministas e lésbicas que, vivendo na Europa entre o fim do século 19 e o começo do 20, forjaram modos de vida em contraponto à cultura patriarcal do Ocidente.

Ao longo da narrativa, passamos por mais de 40 personagens históricas que mudaram suas vidas por meio de comunidades femininas, de amores mais ou menos assumidos publicamente, de mudanças por vezes radicais nas roupas, casas e relações. Acima de tudo, figuras que construíram obras para dar conta dessas vidas possíveis.

São nomes como a fascinante Lina Poletti; as escritoras Sibilla Aleramo, Djuna Barnes, Virginia Woolf e Colette; a ativista Anna Kuliscioff; a pintora Romaine Brooks; as poetas Natalie Barney, Rénée Vivien e Gertrude Stein; a atriz Sarah Bernhardt; a dançarina Isadora Duncan; a arquiteta Eileen Gray; a cantora de jazz Ada “Bricktop” Smith; e a quase desconhecida empregada doméstica Berthe Cleyrergue.

A lista pode ter sido um pouco longa, mas não chega a metade dos nomes, que vão se elencando com títulos de obras por elas criadas ou atravessadas. A amarração entre todas se dá no fascínio pela poeta grega arcaica Safo de Lesbos, que leva muitas delas a aprender o grego e a reimaginar possibilidades no presente.

Nessa trama intricada, enquanto Schwartz escreve pequenas cenas —de menos de uma página na maior parte das vezes—, ela nos insere no tempo ao produzir um personagem “nós” que representa as coletividades ali estabelecidas, convidando a fazer parte desse mundo onde “em cada capítulo Safo poderia se tornar uma de nós, a cada vez uma diferente”.

Vejamos um trecho em que essa coletividade repensa sua relação geral com as personagens.

“Estávamos lutando havia décadas, às vezes desesperadamente, pelo direito à nossa própria vida. Tínhamos nos arriscado, tínhamos renunciado; havia aquelas que tinham sido punidas por ousar ganhar a vida vestindo as calças de seus irmãos e aquelas que mal tinham sobrevivido aos criminologistas. Lina Poletti nos despertara. Anna Kuliscioff nos deixara uma revolução para seguir.”

“Quem de nós desejava agora ser abençoada pelos homens ou recrutada para seus exércitos? Acreditávamos na Divina Sarah: vida, mais vida! Estávamos em 1928, insistimos com Natalie, era hora de livros em que poderíamos, poeticamente, ser todas ao mesmo tempo. Apesar do diagnóstico de Raddclyfe Hall, uma invertida é, de fato, alguém que acredita que isso seja possível.”

Como seria de imaginar, o romance de Schwartz é um “tour de force” erudito, que se explicita —talvez até demasiadamente— num posfácio que conta as fontes de pesquisa e citação. É também um desafio, por evitar o caminho fácil de florear as relações, ou sentimentalizar a demanda política. Pelo contrário, tende a ser frio, ao mesmo tempo em que sustenta uma linguagem poética.

O resultado é um mosaico conciso, de primeira importância, sobre vidas que importam e que, vivendo, construíram possibilidades para o futuro, isto é, para a nossa vida presente.



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