A melhor parte de levar um fora é o quanto a dor da rejeição nos livra, por um tempo, de pensar nos verdadeiros problemas da existência humana: catástrofes climáticas, desigualdades, direitas radicais, a morte que um dia vai chegar, tudo isso magicamente desaparece após um pé na bunda.
A outra parte boa é que um fora pode render material de primeira, expressão que seria, aliás, uma tradução adequada para “Good Material”, título do romance da britânica Dolly Alderton que recebeu o indesculpável “Amar é Assim” na tradução brasileira. Deve vender melhor, mas vai afastar leitores que poderiam curtir uma leitura sem consequências —mas bem fofa— e terão vergonha de ser vistos com essa capa no metrô.
Amar é “assim”? Assim como? Andy, o protagonista, sabe no máximo o que é sofrer por ter sido deixado pela namorada Jen sem entender por quê. O sofrimento é esmiuçado no romance: da “jaula de nostalgia” que habita à inabilidade dos amigos em ajudá-lo, do apoio sem dramas da mãe à tentativa de driblar a ideia fixa em um caso com uma moça mais jovem, nada parece esclarecer a ele, ou a nós, como é amar. (Ainda bem.)
Andy é uma homenagem em versão “early millennial” ao narrador do clássico “Alta Fidelidade”, de 1995. Sai o dono de loja de discos, entra o comediante de 35 anos. Permanecem —em Londres— a dor de cotovelo, as referências pop e a condução segura de uma comédia romântica, com as doses equilibradas de troça e doçura, verossimilhança e exageros, protagonistas adoráveis, mas autocentrados. Permanece também um mundo bem branco e hétero, que hoje soa meio chato.
Um dos poderes narrativos de Alderton é, porém, traduzir tudo isso para os nossos tempos com graça e naturalidade, mesmas qualidades da tradução de Sofia Soter, que só escorrega em uma ou outra escolha cringe, como diria Sophie, a jovem ficante de Andy (mas estamos em 2019 e, para ela, tudo é “cringe” —principalmente os Beatles).
A autora converte em carisma a melancolia de uma geração que não lida bem com a perda de importância do rock nem com a versão Instagram das tensões amorosas. “Nunca houve um momento pior para os meus algoritmos entenderem minha vida íntima”, diz Andy ao abrir o aplicativo e ver que “o primeiro círculo” dos stories é o de sua ex.
Ex, aliás, que ele só vai bloquear meses depois, ao aprender com a geração Z Sophie que “todo mundo sabe” que só se bloqueia uma pessoa quando se está obcecado por ela e que, portanto, bloquear é fazer um tipo meio torto de elogio. Também são ponto alto as tensões geracionais trazidas pelo namorico-rebote: instrutivas para Andy, e para alguns de nós, além de espirituosas, não acusam nem enaltecem nenhum dos lados.
Alderton não investe em força imagética nem explora a densidade de seus personagens —atributos que costumamos valorizar. É hábil, porém, em estabelecer uma distância irônica produtiva em relação ao seu protagonista, mérito difícil em narrativas em primeira pessoa e especialmente bem explorado na representação da dificuldade dos homens de processar em diálogo as emoções.
Que delícia é o trecho em que, para falar de ciúme, um colega diz que Andy está obcecado “sexualmente” pelo novo affair de Jen e arremata com a pergunta: “Por que você acha que ‘Mr. Brightside’ é o hino dos homens da nossa geração?”. Vale ouvir o hino do The Killers para entender.
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As nuances obtidas pela voz de Andy, que denuncia, mesmo à revelia, suas falhas e seu patetismo, tornam excessivo o final de “Amar é Assim”, que oferece uma versão mais normativa dos acontecimentos, versão que Alderton enfia a fórceps, quebrando o tom sinceramente interessado no mundo masculino das páginas precedentes.
Talvez só essa conclusão justifique o título brasileiro, deixando bem claro que não estamos lendo um romance de primeira —apesar do bom material sobre os “early millennials”, e para os que ainda gostam de rock. É, ainda assim, um romance tão adorável quanto, na vida real, deveria ser um namoro, embora também esquecível como deveria ser um pé na bunda.


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