Quando Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos foi condecorado, em 1997, com a principal honraria das literaturas em língua portuguesa, o prêmio Camões, se destacou como seus textos eram capazes de descrever o que era especial, particular, distante de essencialismos.
Ali se celebrava um escritor polifônico, crítico, comprometido com uma utopia, mas cético de sua efetivação. Ainda que pouco lembrado por seu extenso nome, Pepetela, alcunha recebida no período da luta armada pela independência de Angola, tornou-se um marco na literatura lusófona e de seu país, que também traz escritores de peso como Ana Paula Tavares e Luandino Vieira.
Ainda que longe de uma produção estritamente autobiográfica, a obra de Pepetela dialoga com momentos expressivos da história angolana, da qual o autor é testemunha e agente.
Da guerrilha armada no combate contra o colonialismo à experiência de fundar o Estado e compor seus quadros executivos, bem como a melancolia com as incertezas da nação, seu trabalho materializa uma literatura engajada em um projeto coletivo, que não abre mão da complexidade humana diante dos embates que desorientam nossos sentidos.
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A experiência do autor, assim, é parte da história e se liga com a literatura, deixando para esta o papel de enfrentar os horizontes que a realidade por si não consegue interpretar.
Tal relação pode ser notada em “Tudo-Está-Ligado”, o mais recente livro do romancista, escrito após um hiato de seis anos. Publicado no Brasil pela editora Kapulana, o volume apresenta uma trama em que diferentes personagens são construídos gradativamente, quase de forma isolada, de modo a articular interações que envolvem praticamente todos eles.
Com isso, aos poucos vamos descobrindo pelo viés individual a história de personagens que fazem e são feitas por Angola, como Santiago, major reformado do Exército, a bancária Ofeka, Domingos, um funcionário público ainda nostálgico do período revolucionário, a jovem Vita, o professor Mulungu e muitos outros.
O que se narra, porém, não é um reflexo genérico do país, e sim a vibração de pessoas que habitam a cidade de Benguela, terra natal de Pepetela e região que disputa certo protagonismo com a capital, Luanda.
Ou seja, ainda que a literatura se esparrame por campos abertos, a diversidade de cores, texturas, empreendimentos e vozes no romance compartilham uma experiência localizada sob determinadas marcas geográficas e temporais, contemporizando aquela realidade num jogo de reconhecimento e distância interessante para nós, leitores brasileiros.
O tempo, aliás, é um elemento central de “Tudo-Está-Ligado”, uma vez que as personagens que caminham pelas vias de Benguela desempenham papéis flexíveis no passado, presente e futuro.
Santiago, por exemplo, foi militar na Independência, mas já idoso, machucado após um acidente de carro, vive glórias pouco áureas; Olegário, por sua vez, é um DJ que, morto em um atropelamento de motocicleta, torna-se um espírito ancestral a proteger Ofeka. Junta-se a isso o fato de que todos compartilham uma herança pré-colonial quase desconhecida, a origem no pequeno reino de Tchiyaka.
“Tudo-Está-Ligado” revela um Pepetela atento ao contemporâneo, que responde a emergências e demandas da qual ele mesmo participa. O romance retrata uma sociedade que se transformou —e continua em transformação—, dialogando com o mundo, mas tentando sustentar aquilo que lhe é próprio.




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