Crítica: Leonardo Gandolfi joga pique-pega com poemas e escreve com sua filha

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Crítica: Leonardo Gandolfi joga pique-pega com poemas e escreve com sua filha


Uma longa sombra espraia-se sobre “Pote de Mel e Outros Poemas”, mais recente publicação de Leonardo Gandolfi. A sombra ganha variações, adquire formas espectrais, faz recordar memórias pessoais, mistura-se a reflexos perdidos em espelhos, ilude o olhar.

O caminho do qual me valho para a entrada nesta reunião dos poemas não evoca a melancolia. Aqui não parece haver separação entre passado e presente, rememorações e observação cotidiana. A sombra e suas variações constituem uma forma do poeta aproximar-se do real, mas também abraçar o fugidio.

Assim podemos compreender os seguintes versos. “Li Bai ̸ mergulha no rio ̸ para agarrar ̸ o reflexo da lua ̸ e se afoga”. A evocação da lenda sobre a morte de Li Bai, que viveu de 701 a 762 e foi um dos maiores poetas chineses, remete ao movimento pendular do escritor na tentativa de captura da poesia.

Talvez por isso abundem diálogos com músicos, artistas plásticos, animais e crianças ao longo do livro. Onde o poeta ensaia enlaçar a Lua, os pequenos conhecedores dos perigos avisam: “Cuidado ̸ gritam as crianças ̸ enquanto pulam ̸ de sombra em sombra ̸ tentam não pisar na luz”.

São ilhas imateriais transformadas em espaço de segurança. O jogo de pique-pega entre real e representação se liga mais às formas de investigação do processo criativo e menos ao resultado final da obra. Gandolfi está interessado no corpo a corpo entre o sujeito criador e o fazer artístico.

É nesse entrelugar, na iminência do pulo de uma ilha a outra, no salto de Li Bai antes de submergir, que habita a poesia de Gandolfi, como na seguinte estrofe de “Bolinha de papel”. “Agora ̸ o lápis ̸ tem ̸ ponta afiada ̸ agora ̸ não tem ̸ mais ̸ só que ̸ nada disso ̸ se vê ̸ depois ̸ de impresso ̸ o livro”.

Outros poemas, como “Algumas”, “Para Max Martins”, “Poemas”, fazem parte dessa mesma família, cuja instabilidade do próprio ato da escrita torna-se uma das linhas de força do livro.

É necessário também demarcar as relações entre a literatura e as demais artes. Em “Pote de Mel e Outros Poemas”, as artes plásticas e a música aparecem ora em consonância, ora em contraponto com o texto poético. A fala alçada a verso do amigo pintor é desconcertante: “Não dou bom-dia ̸ ao vizinho ̸ com a tinta ̸ que uso na tela”.

Ao poeta, no entanto, cabe a luta com a mesma matéria-prima do cotidiano, a tentativa de desmantelar a língua. Irmana-se ao poeta alagoano Jorge Coopers em busca da linha sem traço, mas poderia também aproximar-se de John Cage no alcance da música como silêncio.

Como já visto em seu livro anterior, “Robinson Crusoé e Seus Amigos”, de 2021, Gandolfi privilegia a visualidade, a síntese, os procedimentos intertextuais e uma relação intricada de observação do mundo ao seu redor.

O eu poético está em constante estágio de atenção, por vezes angustiado com a iminência do desaparecimento. “O espelho também ̸ não se lembra dos rostos ̸ que já refletiu”. Interfere aí o poeta? Cabe a ele ou ao leitor reconduzir tais espectros à fixidez das palavras impressas?

Para ensaiar a resposta, valho-me do poema que empresta título ao livro e remete às histórias de Ursinho Pooh e seus amigos, criadas pelo escritor britânico A.A. Milne.

“Pote de Mel” encerra o volume e é escrito em parceria com Rosa, filha de Gandolfi. Desde os versos iniciais, o leitor encontra as marcações da oscilação e interdependência entre real e imagem. “Mas se o leitão e o coelho ̸ se juntam para jogar ̸ pedrinhas na água ̸ a sombra do pinheiro balança ̸ sem parar”.

Como o poeta interfere na linguagem, as palavras, a poesia igualmente afetam o poeta. Na parceria com a percepção infantil do mundo, o poeta (o pai, o poeta?) aprende a rir dos próprios versos, a desarmar-se frente às dúvidas enunciadas anteriormente.

Lembro-me, então, de Peter Pan, criado pelo também britânico J.M. Barrie. Como o personagem, o poeta costura em si a própria sombra. Recupera-se, ao menos até o próximo livro, certa inteireza, garantida pelos amigos, por um ursinho e pela menina Rosa.



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