Crítica: Isolada nas montanhas, escritora faz livro brutal sobre a maternidade

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Crítica: Isolada nas montanhas, escritora faz livro brutal sobre a maternidade


A escritora francesa Violaine Bérot tem uma trajetória inusitada e ludita. Nasceu no sul da França, nos Pirineus, se formou em engenharia da computação, com especialidade em inteligência artificial, e publicou três romances. De repente largou tudo e foi morar numa casa sem eletricidade ou água encanada, no alto das montanhas, criando cabras.

“Não tem criação literária que se compare à criação de galinhas”, disse Raduan Nassar. Bérot, ao contrário do brasileiro, continuou escrevendo. Desde então, lançou mais oito livros, inclusive “Feito Bestas”, de 2021, que a Mundaréu publica agora no Brasil.

De certa maneira, o livro pode ser considerado uma sequência do romance anterior de Bérot, o ainda inédito no Brasil “Tombée des Nues”, ou “caída das nuvens”. Ambos têm vários pontos em comum: são polifônicos, se passam nas montanhas agrestes dos Pirineus, têm como protagonistas mulheres duras e independentes que escolheram se isolar nas alturas e problematizam a maternidade.

A protagonista de “Tombée des Nues” vive com o marido e, no susto, dá à luz a uma menina sem ter se dado conta que estava grávida. Ela sente, antes de mais nada, horror: tudo o que menos deseja é ser mãe. O romance se passa nos quatro dias posteriores, narrado por sete vozes que descrevem o impacto desse parto na comunidade.

Três anos depois, Bérot publicou “Feito Bestas”. Agora acompanhamos Mariette, mãe de um jovem especial chamado Urso, de enorme estatura e incapaz de falar. Para protegê-lo do Estado que não sabe o que fazer com ele, Mariette vai para o alto das montanhas.

Vinte anos depois, a polícia descobre que Urso está criando uma menina desconhecida em uma gruta inacessível. Com o auxílio de um helicóptero, as autoridades organizam uma operação de resgate.

O romance é formado por um coral de 14 vozes depondo para a polícia, entre vizinhos e turistas, caçadores e professores, formando um painel amplo da sociedade da região para resolver alguns mistérios. Quem é a menina? De onde veio? Quem é sua mãe?

Apesar do elemento policial em primeiro plano, não foi à toa que a escritora argentina Mariana Enríquez classificou “Feito Bestas” de “conto de fadas noir”. A tal caverna é conhecida no folclore local como “gruta das fadas”, pois seria onde “fadas” criariam as crianças indesejadas que roubavam das famílias dali. Surge aí outro mistério a ser resolvido pelo leitor: as fadas são reais? São mitológicas?

Uma das vozes de “Feito Bestas” pertence à vítima de um estupro que resultou em gravidez. “Eu poderia ter sido a mãe dessa menina. Eu poderia ter dado meu bebê às fadas. Me era tão inimaginável ter vivido o que vivi, e que disso nascera um filho. As fadas me pareciam mais realistas.”

Seriam as fadas um “deus ex machina” de tantas mulheres abusadas, violentadas, abandonadas? As questões que Bérot oferece em suas obras parecem sempre relacionadas. Qual é o custo da maternidade para as mulheres? O que é melhor para as crianças? Como lidar com a alteridade radical e inexplicável?

A estrutura polifônica não é apenas uma escolha estilística: em um livro repleto de mistérios, as diversas vozes servem para multiplicar as respostas possíveis e quase sempre conflitantes, garantindo assim que caberá apenas ao leitor o ônus e o bônus de chegar às suas próprias conclusões.

Apesar de suas poucas páginas, “Feito Bestas” é um romance impressionantemente amplo e profundo. Lê-se em uma tarde.

A obra estabelece diálogos interessantes com outros dois lançamentos recentes no Brasil. “Te Dei Olhos e Olhaste as Trevas”, da catalã Irene Solà e também editado pela Mundaréu, é um romance que se passa nos mesmos Pirineus, mas do lado espanhol: uma história de mulheres duras, fortemente marcada pela relação com o meio físico e inspirada no folclore local. Já “Triste Tigre”, da Amarcord, apresenta o relato verdadeiro do abuso que a autora Neige Sinno sofreu nas mãos de seu padrasto, ao pé dos Alpes.

Essas três narrativas, femininas e brutais, influenciadas pela dureza agreste das montanhas, merecem ser lidas em diálogo umas com as outras.



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