Publicado em 1992, “Partindo o Pão – Vida Intelectual Negra Insurgente” reúne ensaios e diálogos entre bell hooks e Cornel West, dois intelectuais negros americanos e amigos de longa data.
Como é da natureza do diálogo ser livre, este é um livro que é interrompido, que embarca em uma viagem pela indústria cultural americana, mas também por memórias pessoais, sempre amarrado pela defesa da crítica.
Ainda que saborosas, as curiosidades sobre os autores —como o disco favorito de bell hooks e a obsessão de Cornel West com James Baldwin— são poucas para um livro de diálogo. Em vez disso, imperam as constantes menções à Igreja negra americana.
Os dois autores são cristãos e atribuem sua carreira intelectual ao incentivo que encontraram na igreja, o que dá à instituição uma centralidade no debate, mas sempre de uma forma pessoal, maçante e um pouco moralista. É só no penúltimo ensaio do livro que a igreja ganha peso no campo da teoria. Vale a espera.
Nele, West afirma que os intelectuais negros precisam se reaproximar da produção cultural da comunidade negra, a fim de apreenderem o que ele chama de “tradição intelectual negra orgânica”.
Diferente dos circuitos acadêmicos, que foram marcados pela segregação racial; na igreja e na música, os intelectuais negros puderam trocar entre si ao longo de séculos, levando a pregação e a música negra a formar suas tradições próprias, ambas partindo de princípios orais, performativos e de improviso.
Não à toa, o engajamento político negro nos Estados Unidos é historicamente atravessado pela religião, de Sojourner Truth a Martin Luther King Jr., de Frederick Douglass a Malcolm X.
A ideia de fazer um livro de diálogos surgiu de uma mesa promovida pela Universidade de Yale com os dois autores. De pronto, a conversa deixa nítido o objetivo do livro: hooks e West querem ser o exemplo de “duas pessoas negras radicais e adultas trocando, nem sempre concordando, mas sempre se respeitando.”
A regra do respeito, no entanto, não vale para as populações LGBTQIAPN+. Logo no início do capítulo “Em Solidariedade: Uma Conversa”, bell hooks acusa o historiador Manning Marable —autor de “Malcolm X: Uma Vida de Reinvenções”, biografia premiada pelo prêmio Pulitzer de 2012— de difamar seu biografado.
“De repente, as pessoas ficam sabendo que Malcolm era gay, que ele era um mentiroso, que Malcolm não era da forma como se apresentava —e nada disso foi muito bem fundamentado”, diz hooks, “Sim, Malcolm pode ter tido alguns encontros sexuais com homens por dinheiro em seus anos de vício, mas isso faz dele um homem gay?”
A partir de entrevistas até os registros de visitas nas prisões em que Malcolm esteve, Marable aponta a possibilidade de que o líder negro fosse bissexual, em sua obra de mais de 600 páginas. “Embora o livro seja útil, isso não significa que não poderíamos dar uma atenção crítica a alguns aspectos da biografia que pareceram quase uma difamação de caráter”, continua hooks.
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“Muitos homens, brancos e negros, invejavam a capacidade de Malcolm de falar com as pessoas comuns, de inspirar essas pessoas. E costuma ser a inveja ou o ciúme que faz um indivíduo destacar aspectos da vida de alguém que não são tão importantes ou que são simplesmente mentiras. Marable foi motivado pelo ego patriarcal a difamar Malcolm e então a ser seu feitor. Quem aprendeu com Malcolm sabia que ele tinha falhas —quem não tem?”
A homofobia de hooks não surpreende. Enquanto em “Tudo sobre o Amor”, a autora trata a sexualidade como uma escolha, em seu ensaio “Is Paris Burning?”, ela faz uma crítica ao filme “Paris is Burning”, de Jennie Livingston, em que se refere às drag queens como homens “obcecados com uma visão idealizada e fetichizada sobre feminilidade que é branca” ou “pessoas negras colonizadas que adoram o trono da brancura”.
A forma de argumentação anedótica de bell hooks é a principal aliada do seu preconceito. Em “Partindo o Pão”, West pontua como duas grandes instituições negras caras à autora, a Igreja e a família negra, são patriarcais. hooks, emblemática dentro das leituras feministas, perde a chance de tensionar sua própria ideia sobre família.
Em vez disso, responde que até a integração racial, todas as pessoas negras gays viviam dentro dessas duas instituições. Aí é que entra o problema em seu método argumentativo: ela parte de memórias de infância, como a presença do pianista gay na igreja que frequentava, para concluir que a comunidade negra e a igreja eram mais tolerantes. Não eram. West mesmo adverte que existiam pregações dentro das igrejas contra a homossexualidade.
Historicamente, também é errado afirmar que toda a população queer viveu dentro da igreja até a integração racial, que só aconteceu nos Estados Unidos em 1968. Figuras trans masculinas como Gladys Bentley, por exemplo, marcaram a história do Harlem já na década de 1920.
Tanto bell hooks como Cornel West defendem uma ética do serviço, do sacrifício e do risco como base para a emergência de novas lideranças dentro da comunidade negra. Isso também se aplica aos intelectuais, que precisam incorporar as tradições negras orgânicas para sua produção acadêmica.
Em um nível mais profundo, “Partindo o Pão” é um livro sobre a importância da comunidade e o direito à contradição.




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