“Sem Despedidas”, da escritora coreana —e ganhadora do Nobel— Han Kang, parece ter sido escrito não com palavras, ou não somente com palavras, mas também pela neve. A neve, seu silêncio e mistério, perpassa cada paisagem e tempo do livro, e são muitos, como se nevasse sobre as palavras, como se as frases fossem brancas e o frio penetrasse nelas e, simultaneamente, em nós.
Neva no apartamento de Seul onde a narradora, uma mulher perturbada e em luto, se isola com seus pesadelos; neva no caminho para o hospital, onde ela vai encontrar a amiga que lhe pede um favor tão absurdo quanto irrecusável; neva na estrada impossível para chegar a um vilarejo escondido no meio das montanhas da Coreia; neva na casa, nos pássaros e na floresta.
“Centenas de milhares de momentos reluzem ao mesmo tempo, parecendo flocos de neve com suas formas elaboradas e amplas.” Os flocos de neve, tão geometricamente perfeitos, se desfazem em água assim que atingem as mãos, como a matéria da história que se conta, que transforma o passado em presente e a imaginação em realidade, de forma que ao leitor resta sempre uma pergunta: por quê?
Por que essa mulher, há tanto tempo inerte, aceita o risco de viajar centenas de quilômetros, em pleno inverno, apenas para tentar salvar o pássaro de sua amiga ferida? Por que os pesadelos da narradora parecem profetizar o futuro e descortinar a tragédia do passado, em que milhares de pessoas foram mortas pelo regime coreano?
Aproximando a história coletiva do drama —só aparentemente menor— de duas personagens, Han Kang mostra como o tempo e as narrativas pessoais vivem entrecruzados na memória e nos lugares, guardando segredos que, muitas vezes, só o acaso e a teimosia conseguem revelar.
Enquanto a narradora adia a escrita de uma carta suicida e sua amiga Inseon, gravemente ferida nas mãos e aturando injeções doloridas a cada três minutos, adia um projeto de documentário, o livro retém o leitor nessa espera.
Uma espera lenta e enevoada, uma espera por algo que nem a protagonista sabe bem o que é, mas que o leitor já antecipa como algo terrível. “Há 70 anos, nesta ilha, a neve cobriu o rosto de centenas de crianças, mulheres e idosos que estavam no pátio da escola, deixando-os irreconhecíveis; não há como negar que aquelas gotas de água, que os cristais fragmentados e que o gelo fino tingido de sangue possam ser a mesma coisa e que neste momento também sejam eles a neve que cai sobre meu corpo.”
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Como tudo está coberto de neve, também o passado surge como uma névoa fantasmática, sem que se saiba se as vozes que se escutam são de pessoas e animais já mortos ou se as pessoas que morreram naquele lugar continuam, de alguma forma, ainda vivas.
É como se não fosse somente a amiga, mas a própria história que tivesse convocado a narradora a ir até lá e testemunhar a carnificina ocorrida 70 anos antes e esse convite fosse inapelável.
É arriscado, é perigoso, mas é preciso ir. Assim como é preciso, para uma cineasta como Inseon, filmar. E para uma escritora como a protagonista (e como Han Kang), contar. Contar, por mais que doa (e como dói), por mais que seja arriscado, por mais que neve sobre as palavras e sobre nós, leitores que, de alguma forma, participamos da narração.
A escrita de Han não se rende por uma página sequer a impulsos de amenizar ou facilitar a leitura. Tempos e vozes se misturam e se confundem, nem sempre o leitor sabe quando e onde as coisas se passam, mas nem por isso o livro é pesado, embora os acontecimentos o sejam.
De forma tão silenciosa e leve como a neve, a linguagem como que sopra e passa. “Senti o silêncio tenso como se fosse um tecido colocado num bastidor para bordado.” É assim que se termina “Sem Despedidas” —com um silêncio tenso na cabeça e nas mãos.

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