Crítica: ‘Grand Tour’ encanta em uma hábil releitura do velho imaginário colonial

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Crítica: ‘Grand Tour’ encanta em uma hábil releitura do velho imaginário colonial


Em “Grand Tour”, Miguel Gomes nos leva a duas viagens, justapostas no filme, porém paralelas no tempo real. Na primeira delas, Edward de Mandeley chega a Yangon em janeiro de 1918, levando um maço de flores, para encontrar sua noiva, Molly, que não vê há sete anos.

Yangon fica na Birmânia, hoje Mianmar. Lá, ele recebe um telegrama da noiva, avisando que está de chegada. Jovem de impulsos inesperados, relativos a estranhos sonhos que tem tido, sai apressado da cidade e toma um trem para não importa onde.

Ele começa a viajar de cidade em cidade por um extremo Oriente quase sempre impregnado do exotismo dos tempos —e dos filmes— coloniais. Ele quer sempre estar onde a noiva não está. Se Molly avisa que está chegando a Singapura, ele toma um navio ou lá o que seja e vai embora.

A noiva, Molly Singleton, talvez seja a sua “sombra”, como Edward diz, no Japão, a um monge budista. O monge responde a ele que melhor do que fugir de sua sombra é procurar por ela.

Na segunda metade do filme, sua contraparte, Molly, desembarca em Yangon para o encontro com Edward, que deixou a cidade agora há pouco. Ou seja, no começo do filme. Se primeiro acompanhamos o tour do noivo, agora ficaremos com a noiva.

Separados e distanciados pela narrativa, eles se dedicam a esse formidável tour colonial, quase sempre por um Oriente que só sobrevive, hoje, na imaginação produzida por antigas histórias onde só se via exotismo.

Edward de Mandeley pertence à nobre família de Mandeley? Ou à tradição da mansão de “Rebecca” —a mulher inesquecível? Em todo caso, Molly é obstinada e segue atrás dele. Para Molly, o casamento é coisa séria; ela está destinada a Edward e fim de conversa.

Ela vê o casamento como convenção ou como uma saudável obrigação. Resiste aos constantes desencontros com o noivo com bastante humor, quando é referido a ela que a desconexão temporal, os desencontros, pode significar que Edward estaria fugindo dela. De jeito nenhum, ela diz, ele é seu noivo prometido e pronto. Seu bonito riso quando se toca no assunto é mesmo como um ponto de exclamação.

No mais, ela parece conhecer bem a instituição do casamento e acreditar cegamente nas instituições em geral. Elas impulsionam sua determinação e capacidade de se adaptar aos maiores infortúnios.

Ela seguirá na busca por meses, em navios, barcos, florestas, onde for, para encontrar Edward. Será hóspede de um galã gentil e sombrio, o milionário Sanders, que promete a ela muito amor. Ela até parece embarcar nessa, ao som da canção que promete amor à luz de uma lua prateada, mas muda de direção, visita uma cartomante, fica revoltada porque ela diz que pode morrer logo, viaja selva afora como num romance de Joseph Conrad, no coração das trevas.

Tudo isso faz com que, conhecendo o trajeto de ambos, a revisão deste filme seja muito mais divertida do que a primeira visão. Podemos mais facilmente conectar as trajetórias divergentes de Edward e Molly, assim como eles parecem fazer parte de tempos diferentes.

Molly é uma mulher às antigas, digna de 1918, uma dama britânica cheia de certezas. Quanto a Edward, pode ter passado pela guerra. Seu sonho mostrado logo no início do filme, quando um homem impulsiona uma roda gigante pré-mecânica, anuncia a proximidade de perigos, assim como a dança de fantoches controlados por forças alheias parece falar a ele da necessidade de se livrar de amarras —matrimoniais, por exemplo.

Mas de onde virá a súbita decisão de Edward? Sabemos que precisa fugir, desaparecer. Terá passado pela guerra? Ficou revoltado com decisões familiares? Edward e Molly enunciam mentalidades diferentes, que parecem responder a eras diferentes. Não são os únicos. O sombrio Sanders é um tipo saído de Hollywood, emanação do amor das aventuras românticas dos filmes dos 1930.

O último, e não menos estranho, desencontro temporal promovido por Miguel Gomes vem das imagens das cidades do Oriente. As imagens de uma Saigon pós-colonial, pós-Guerra do Vietnã, por exemplo, provocam um súbito choque no espectador, pela percepção dos vários tempos que se encontram contidos no filme.

São um encanto a mais do filme. Como outros, um encanto mais perceptível e mais sensível na revisão deste novo e belíssimo trabalho de Miguel Gomes. Faltam a ele, talvez, um outro detalhe capaz de tornar a primeira visão mais atraente. Mas é só. Inteligência e talento tem de sobra.



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