“Jacarandá” é um livro difícil. Lançado na França no ano passado e laureado com prestigiado prêmio Renaudot, suas 240 páginas chegam ao Brasil esse ano pela Editora 34, em tradução eficiente de Mirella Botaro e Raquel Camargo e orelha de Itamar Vieira Junior.
Escrito por um autor cuja biografia ameaça ofuscar a inequívoca consistência de sua obra —convidado da Flip, Gaël Faye é rapper, em um mundo no qual os donos da literatura ainda usam armação de acetato e fazem do racismo estrutural sua única religião—, “Jacarandá”, o livro difícil, é o retrato cru da condição daqueles que migram em busca de uma vida melhor, ainda que esse melhor queira dizer, na maioria das vezes, apenas uma vida com menos violências do que a anterior.
O protagonista Milan é um adolescente que vive na França. Filho de mãe ruandesa e de pai francês, sem saber que certas notícias de hoje falam da nossa vida de ontem, ele se depara com os horrores do genocídio ruandês através dos jornais, sempre convocados pela sociedade a desfazer, com argumentos e imagens, os danos —seja em Ruanda, em 1994, seja em Gaza, em 2025— que a má política causou.
Mas “Jacarandá” não é sobre os restos que a morte deixa em seu longo rastro de destruição, mas, pelo contrário, é sobre os vestígios da vida humana que sempre resiste, quando se apoia nos estertores da manipulação da linguagem.
A árvore que dá nome ao romance é uma metáfora utilizada pelo autor para explicar que ornamentos e paisagens podem ser rotas de fuga em situações-limite —assim como os livros, destino fatal de certas árvores perdidas. O autor parece sugerir que quem sobrevive para contar uma história de horror ganha o direito de humilhar os agressores.
Para a indústria livreira, esse romance é a prova de que é possível renovar o “middlebrow” sem sucumbir à ladainha de que maus tempos demandam má literatura. Para quem escreve, trata-se de um bom alerta: há modos de unir inventividade e legitimidade antropológica, tornando a literatura a face legível da vida social.
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É pouco provável, entretanto, que a contemporaneidade seja capaz de produzir, com a velocidade que nossa ansiedade deseja, uma literatura que represente enfim um acerto de contas com aquilo que nos trouxe até aqui: nós mesmos. Para escapar desse beco sem saída das narrativas urgentes, “Jacarandá” investiga outro tipo de migração: aquele que ocorreu entre os eus do passado e nossos eus do presente.
É claro que se pode fingir horror ao descobrir —pela enésima vez— que o mundo é um espetáculo grotesco de perseguições, abusos, mandonismo, racismo e misoginia. É claro que se pode fingir que a literatura que amamos nada tem a ver com essas coisas horríveis que acontecem na vida dos outros, pois os livros caem do céu, trazidos por cegonhas cintilantes costuradas à mão pela bondosa Dona Benta.
Pode ser. O autoengano é o direito democrático mais exercido no mundo. Quanto a Faye, ele aparenta não ter gosto pelas ilusões e trabalha o tempo inteiro para que todas elas se desmanchem dentro da mancha tipográfica que a edição nos oferece.
O massacre dos tútsis pelos hútus é reeditado com ainda mais violência cada vez que a lógica colonial revela sua quase infinita disposição para a renovação de suas perversões de tiranas. Por isso, os personagens de “Jacarandá” estão convencidos de que a construção de um mundo melhor passa pela rejeição daquilo que vem nos intoxicando.
Assim, a literatura é apresentada pelo autor como se fosse um novo continente para um novo conteúdo. É como disse um velho pensador da cultura judaica: “Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa, e a coisa fica ainda pior. E ninguém coloca vinho novo em jarra velha, pois se rompem as jarras e os dois se perdem. Vinho novo se põe em jarra nova e assim ambos se conservam”.
Tendo a concordar com ele; mas que livro difícil é “Jacarandá”.


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